Lá, final feliz… E aqui?

Às voltas com a crise atual, o empresário brasileiro não sabe se pode contar com a mesma recuperação econômica que EUA e Europa vivem pós “bolha imobiliária”

Sofrendo com a crise econômica, os empresários da construção civil alimentam a esperança de que aqui ocorra algo parecido ao que se vê na Europa e nos Estados Unidos: após sérios problemas com o colapso financeiro global do fim da década passada, o setor voltou recentemente a crescer de forma lenta, porém gradual e segura. Há razões para imaginar que podemos nos inspirar no modelo de reativação da economia que está sendo tão bem-sucedido em outros países para superar a atual fase ruim no Brasil? O que é possível aprender com o cenário externo e usar como lição para a nossa realidade?

Antes de tentar identificar semelhanças entre as duas crises, é preciso entender que a natureza delas é bem diferente. Lá fora, tudo começou com o uso do mercado imobiliário por bancos e financeiras americanas como instrumento de entrada de dinheiro. “Eles criaram mecanismos em que os imóveis eram considerados como garantias para fornecer crédito a pessoas que tinham pouca capacidade de pagamento”, afirma o economista da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) Luis Fernando Melo. “E quando a pessoa não conseguia quitar os débitos, dava-se ainda mais dinheiro com a expectativa de que as habitações se valorizassem graças ao crescimento natural da economia e, em caso de calote, pudessem cobrir o custo do empréstimo.”

De acordo com o economista, quando os juros subiram nos Estados Unidos, muita gente não conseguiu pagar as suas pendências. Daí, na hora de cobrir o rombo, as instituições financeiras ficaram no prejuízo porque os valores obtidos com a venda dos imóveis eram menores do que as dívidas que existiam, uma vez que o aumento expressivo e repentino da oferta ocasionou a desvalorização desses ativos. Por isso, vários bancos e financeiras americanas entraram em falência. E, em uma economia globalizada como a atual, foi inevitável que a “quebradeira” se alastrasse para outras nações. O resultado foi o surgimento de um cenário recessivo nos Estados Unidos e na Europa – França, Itália e Espanha estavam entre os países que tiveram maior prejuízo.

Entre outras consequências, a crise afetou a construção e o lançamento de empreendimentos privados. Os bancos e financeiras dificultaram a concessão de créditos, o que freou a venda de unidades habitacionais e comerciais, reduzindo a atividade da construção civil. “O setor costuma andar muito atrelado ao desenvolvimento dos países. À medida que a atividade econômica cai, a sociedade perde renda e emprego e, por isso, não tem capacidade de aquisição da casa própria nem condições de investimento”, diz Rodrigo Luna, presidente da Federação Internacional Imobiliária (FIABCI-Brasil).

E o que foi feito para resolver o problema? Os governos decidiram intervir na economia reduzindo juros e comprando títulos “podres” para colocar muito dinheiro em circulação no mercado e, assim, incentivar os negócios privados. Outra medida importante foi a contratação e o financiamento de projetos de infraestrutura com o objetivo de estimular a construção civil. Nos Estados Unidos, os gastos públicos com obras de segurança pública, saúde, escritórios, edifícios comerciais e educação aumentaram a partir de 2008, atingindo um ano depois a taxa de 35% do total de investimentos no setor, conforme o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) registra no estudo “Perspectivas do Investimento: 2010-2013”.

Essa estratégia deu certo. Em 2015, o PIB americano cresceu 2,4% e o desemprego diminuiu. “O mercado imobiliário daquele país vem se recuperando lentamente e hoje está consistente, mesmo sem grandes volumes de crescimento”, afirma Luna. “Obviamente, o setor financeiro de lá aprendeu muito com as consequências da ‘bolha’, especialmente os agentes que operam no crédito imobiliário. Há equilíbrio nas taxas de crescimento de forma muito mais saudável e consistente, com leve tendência de alta, a depender do crescimento da economia como um todo.”

E aqui, como fica?

Infelizmente, é muito difícil que as soluções adotadas nos países desenvolvidos funcionem no Brasil, e por um motivo simples: os governos não têm dinheiro suficiente para injetar no mercado. Hoje em dia, o setor público não consegue adotar políticas de incentivo que possam estimular os negócios privados, revertendo a tendência de recessão. O Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, que elevou a atividade da construção civil com a compra de imóveis pela população pobre, sofreu sérios cortes com a diminuição na arrecadação: em fevereiro deste ano, os gastos caíram 32% em relação ao mesmo período de 2015, enquanto em janeiro houve queda de 72%.

Para Alexandre Mattos, diretor associado da consultoria Macroplan, a grande esperança de fazer com que o setor de construção civil atinja os mesmos patamares do período em que a economia brasileira experimentou uma forte expansão – em 2010, o PIB cresceu 7,5%, enquanto o dos Estados Unidos subiu apenas 2,9% – está diretamente relacionada à implantação de um forte ajuste fiscal (redução de despesas, cortes em programas e até aumento de impostos) que seja capaz de dar aos governos mais fôlego no caixa para investir.

Além disso, é primordial a implantação de programas de privatização para atrair capital privado externo disposto a investir no Brasil, trazendo divisas para a economia local. “Essas medidas gerariam um ambiente de confiança à economia brasileira. As famílias voltariam a consumir e a produção cresceria novamente após o esgotamento dos estoques que hoje existem no mercado”, explica Mattos. Se colocado em prática, esse processo poderá levar cerca de três anos. Não se deve, portanto, esperar grandes taxas de crescimento no PIB brasileiro em 2017 e 2018.

Nem todas as notícias, porém, são negativas. “As maiores ofertas imobiliárias já estão acabando e se começa a notar uma leve recuperação do setor, ainda que com poucos lançamentos”, aponta Emílio Kallas, vice-presidente de incorporação e terrenos urbanos do Secovi-SP. E ainda há muito espaço para a expansão desse mercado, na visão dos especialistas: o Brasil tem um alto déficit habitacional, com mais de 7 milhões de famílias sem casa própria e uma classe média frágil, dona de um poder de compra bem distante das sociedades europeia e americana.

Segundo Melo, vale a pena continuar apostando na construção civil brasileira, com crise e tudo. “Com todos os problemas, investir aqui ainda é melhor do que lá fora. No segmento de infraestrutura, não existe um país com possibilidade de ter expectativas tão positivas de retorno. Além disso, os ativos são relativamente baratos: pode-se comprar uma empresa que estiver passando por dificuldades a um preço não muito alto, por exemplo.”

Outro fator a considerar, de acordo com Melo, é que o empresário brasileiro interessado em “fugir” da situação atual investindo no mercado externo tem boas possibilidades de fazer um mau negócio. Em primeiro lugar, ele vai perder dinheiro na hora de converter o real para moeda estrangeira por conta da desvalorização cambial. “E o nível de atividade econômica, mesmo tendo se recuperado e sendo maior que o nosso, não se tornou suficientemente forte para compensar esse investimento. Prova disso é que o Banco Central americano, apesar da queda no desemprego e de pedidos de falência, mantém uma taxa de juros positiva”, completa.

Para investir no mercado local, porém, o empresário terá de encarar grandes desafios. O primeiro é a insegurança econômica do Brasil: a situação é tão instável que o empreendedor não sabe se vai conseguir ter o retorno do seu investimento no futuro próximo. O segundo é a concorrência desleal que o setor produtivo sofre do próprio governo. Aqui, é muito mais fácil comprar títulos que financiam a dívida pública (atualmente, os juros básicos da economia estão em 14,25%), cujo risco e esforço são baixos, do que investir em infraestrutura.

Outra dificuldade é o fato de que grandes empresas da construção civil – frequentes parceiras de negócios de pequenos e médios – estão sujeitas aos desdobramentos da Operação Lava-Jato. Para se ter uma ideia, sete das dez maiores empreiteiras do País, incluindo Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Camargo Corrêa, tiveram executivos investigados pela Justiça. Por outro lado, a situação também abriu espaço no mercado interno às companhias menores, que ganharam a oportunidade de assumir serviços antes delegados a essas multinacionais.

Com todos esses fatores a ponderar, os especialistas garantem que a verdade é uma só: no momento, não há muito a fazer além de ter paciência e cautela. “Saber dimensionar o passo de acordo com a própria capacidade é a conduta mais certa. Temos consciência de que melhores dias virão, só não conseguimos dizer quando. Por isso, atuar de forma consistente, mas combativa, permitirá nos reerguermos o mais rápido possível”, acredita Rodrigo Luna.

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