Um sinal de esperança

*Por Eurimilson Daniel

A desaceleração da economia nacional afetou diretamente o setor da construção, que fechou mais de 416 mil postos de trabalho em 2015, sendo o segmento com o segundo maior número de cortes, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. O mercado de equipamentos para construção seguiu pelo mesmo caminho, e as vendas das principais máquinas para esse setor despencaram em mais de 57%. A linha amarela, por sua vez, apresentou uma queda menor, acima de 50% ante o ano anterior, chegando a um patamar de 13,4 mil unidades comercializadas contra aproximadamente 27 mil em 2014.

Conforme análise do Estudo Sobratema do Mercado de Equipamentos para Construção, essa quantidade de máquinas vendidas é maior apenas do que no ano de 2007, quando foram comercializadas quase 11 mil unidades. Além disso, esse percentual representa, em termos absoluto e proporcional, o maior declínio de vendas da série histórica do estudo, iniciado há nove anos, sendo maior até do que foi registrado em 2009, no auge da crise financeira internacional. Com isso, 2015 tornou-se um dos períodos mais difíceis de nosso setor na última década.

Esse cenário desafiador está relacionado a uma série de fatores, mas em especial ao menor investimento destinado à área de infraestrutura, à paralisação de obras importantes e à incerteza política, econômica e financeira para a viabilização de novas concessões e de novos projetos para a melhoria do escoamento logístico, da locomoção de pessoas, da eficiência energética, do saneamento básico e da habitação de nosso País. No ano passado, dados do Ministério do Planejamento mostram que o pagamento total voltado para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi de R$ 47,3 bilhões, contra R$ 62,9 bilhões em 2014.

Ainda sobre o programa, segundo um levantamento realizado pelo jornal O Estado de São Paulo, das dez principais obras do PAC 1 lançadas em 2007, apenas duas foram concluídas: a conversão da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, no Paraná, e o piloto da produção do campo de Lula, no Rio de Janeiro. Outros seis projetos estão em operação, mas as obras ainda não foram totalmente concluídas: a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco; a Usina Hidrelétrica Belo Monte, no Pará; as Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia; o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro e o Trecho Sul da Ferrovia Norte-Sul, que integrará os Estados de Tocantins, Goiás, Minas Gerais e São Paulo.

No entanto, apesar de o mercado estar mais cauteloso sobre as perspectivas para este ano, inclusive com a expectativa do fechamento de novas vagas de trabalho na área de construção e com queda de cerca de 3% na venda de equipamentos da linha amarela, o governo federal vem acenando positivamente com a criação de mecanismos que permitam a realização de novos investimentos em infraestrutura, acelerando dessa maneira obras em andamento do PAC, do Minha Casa Minha Vida e do Programa de Investimento em Logística (PIL) – e com isso proporcionando e conciliando uma agenda de crescimento do ajuste fiscal.

Entre os mecanismos anunciados pelo governo estão o lançamento de linhas de crédito, por meio de bancos públicos, para o segmento de construção e para o setor de máquinas e equipamentos, e a alteração nas regras de liberação de recursos do FI-FGTS para a infraestrutura. Há ainda a expectativa de que ocorram novos leilões para concessão de rodovias, ferrovias e aeroportos neste ano, conforme um levantamento realizado pelo portal G1. Esses projetos estariam ligados à nova fase do PIL, anunciado em junho de 2015, cujos investimentos somam mais de R$ 198 bilhões.

Por parte dos governos estaduais e municipais, há um esforço em alavancar obras e projetos nas áreas de transporte, infraestrutura, mobilidade urbana e saneamento básico. No fim do ano passado, o governo de São Paulo lançou um pacote de concessões de mais de R$ 13 bilhões em que estão incluídos aeroportos, rodovias, linhas de metrô e ônibus intermunicipais. A maior parte desse montante será destinada ao segmento rodoviário (R$ 10,5 bilhões). Para as rodovias, são estimados quatro lotes, com extensão total de mais de 2,2 mil quilômetros. Já para os aeroportos, o investimento a ser feito ao longo de 30 anos de concessão será da ordem de R$ 90,1 milhões, sendo R$ 32,4 milhões concentrados nos quatro primeiros anos. Segundo cronograma da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), o edital para os leilões dos cinco aeroportos deve ser publicado em março.

Certamente, todas essas iniciativas são positivas e ressaltam a vontade do governo em aumentar a confiança do mercado e fornecer uma maior credibilidade na economia e na governabilidade do País. Porém, elas precisam, necessariamente, sair do papel para que haja a retomada das obras de infraestrutura, com o consequente crescimento econômico, geração de emprego, retorno dos investimentos e a continuidade no desenvolvimento da indústria da construção.

 

*Eurimilson Daniel é vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema)

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