Hoje ou amanhã?

Investir em locação de máquinas e equipamentos é desafiador considerando o contexto econômico atual. Quem tem planos de ingressar nesse mercado deve mirar no futuro ou apostar em nichos que têm dado resultados positivos apesar da crise

Quais são os passos iniciais para quem quer entrar em um mercado? Qual é o conhecimento técnico necessário? Quanto é preciso investir? Até os executivos mais tarimbados têm essas e outras dúvidas na hora de decidir por ingressar em um novo negócio. Mas, no caso de um mercado segmentado como o da locação de equipamentos e máquinas de terraplenagem, montar uma empresa sem fazer uma análise prévia bastante detalhada é um plano arriscado, especialmente em um momento delicado como o que o Brasil vive atualmente.

Alarmados pelas dificuldades enfrentadas nos últimos tempos, como a recessão econômica (o mercado estima retração no PIB de 2015 em 2,95%, o pior resultado em 25 anos) e as investigações da Operação Lava-Jato, que comprometem as atividades das principais construtoras nacionais, os empresários recomendam: agora não é o momento mais adequado para investir em um segmento tão sensível às variações da macroeconomia.

“O mercado enfrenta um forte período de baixa. Não há obras em andamento. E não podemos esquecer as condições da economia: inflação e dólar em alta, assim como a taxa de juros. O cenário não anima os investimentos, e os serviços estão com valores deprimidos”, diz José Henrique Bravo Alvez, vice-presidente comercial da Locar Guindastes. De acordo com ele, esse cenário deve perdurar pelo menos nos próximos dois anos. “Há muitos players, os preços estão em baixa e os custos, elevadíssimos. Quem já está na área certamente não deverá investir.”

Os números mais recentes evidenciam essa situação desfavorável. Reynaldo Fraiha Nunes, presidente da Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Máquinas, Equipamentos e Ferramentas (Analoc), aponta que o mercado regrediu 35% em 2015 e 20% em 2014. Por conta disso, as empresas estão sendo obrigadas a diminuir suas atividades, reduzindo custos e desistindo de novos investimentos. “O setor opera hoje com 50% da capacidade”, explica ele, que também não acredita em mudanças positivas para este ano. “Não há esperanças de crescimento para 2016 por conta da crise política e econômica.”

É certo que o panorama atual não é nada estimulante, mas quem tem planos de ingressar nesse mercado deve mirar no futuro. Os especialistas garantem que o setor apresenta boas possibilidades, especialmente se o governo voltar a estimular o desenvolvimento do País: afinal, o Brasil ainda tem muito a fazer na área de construção civil, especialmente obras de infraestrutura. “Nos últimos anos, o investimento nessa área está abaixo dos países emergentes”, explica Nunes.

Para aqueles que não pensam em esperar até que a economia melhore, há uma possibilidade aceitável: investir em nichos que estão obtendo resultados positivos apesar da crise. Os donos de lojas de aluguel de ferramentas menores, por exemplo, estão conseguindo fazer bons negócios. “Não estão acontecendo obras novas, mas as construções que ainda existem permanecem em movimento, mesmo em ritmo reduzido. Então o pessoal aluga compactadeiras manuais, furadeiras e outros equipamentos de pequeno porte”, explica Marcus Welbi Monte Verde, presidente da Apelmat e do Selemat. “Se eu fosse investir hoje, compraria esse tipo de peça.”

Primeiros passos

Depois de analisar todos os cenários, se a decisão de entrar na área de locação de equipamentos e máquinas de terraplenagem for tomada, o primeiro passo é abrir a empresa. No Brasil, o processo de obtenção de um CNPJ demora e não é fácil nem barato, mas é possível obter orientação sobre os trâmites legais e sobre o passo a passo no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Com tudo isso acertado, é preciso definir qual será a especialização do negócio. O setor é bem diversificado, incluindo desde o aluguel de pequenas máquinas até de grandes guindastes, e há muitos concorrentes em cada segmento. “Podemos falar até em milhares de empresas no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema) indicam que existem em atividade 730 mil equipamentos com até dez anos de vida”, diz Alvez.

Segundo o executivo, cada nicho desse mercado exige que o empresário, se quiser ser bem-sucedido, tenha conhecimentos técnicos bem específicos. E eles só podem ser aprendidos no dia a dia. “A pessoa precisa ter trabalhado ou mantido contato com o setor”, afirma. Adquiridas na prática ou por outros métodos, como consultorias e pesquisas de mercado, essas informações são fundamentais para o desenvolvimento de uma etapa importante da montagem da empresa: o plano de negócios.

Esse documento deve descrever os objetivos (visão, missão e valores), as projeções financeiras e outras informações importantes – e quanto mais detalhadas, melhor – a respeito da companhia e de seu posicionamento no mercado. São esses conceitos que vão nortear o empresário nos momentos de tomada de decisão, visando a reduzir riscos e futuras incertezas. O Sebrae oferece boas dicas para facilitar a realização desse trabalho.

Nessa fase, o executivo já precisa saber qual é o capital inicial a ser investido. Vale ressaltar que, entre outras despesas, os equipamentos têm custo alto de compra e manutenção. Para se ter ideia, uma retroescavadeira, por exemplo, vale cerca de R$ 200 mil, enquanto uma escavadeira está na faixa de R$ 500 mil, de acordo com o presidente da Apelmat e do Selemat.

O empresário também deve ter uma boa quantia guardada para manter o seu padrão de vida por um longo tempo independentemente do sucesso do negócio. “Em menos de dez anos, em média, não dá para obter o payback (retorno sobre o investimento)”, afirma Alvez, que dá outras recomendações. “A pessoa também deve saber os riscos, ter bom relacionamento com clientes e ótimo conhecimento em gestão de pessoas.”

Uma dica importante dos especialistas é que o empreendedor procure as entidades do setor para receber informações atualizadas e confiáveis a respeito do mercado. A Apelmat, de acordo Welbi, está elaborando neste ano cartilhas para auxiliar quem queira entrar nesse mercado. “Mas elas também vão ajudar quem já está no setor, pois tem muita gente ‘quebrando’ por falta de informação e de conhecimento”, fala.

Outros cuidados

Quem quer investir nesse setor também precisa ter muita cautela na hora de definir uma série de medidas relativas à abertura de seu negócio. Resoluções como a escolha do lugar onde o escritório será aberto, as condições de aquisição dos materiais necessários à atividade e a definição de clientes e fornecedores, como em qualquer outro segmento, são pontos cruciais para o fracasso ou para o sucesso.

A conservação dos itens que serão alugados merece atenção especial. Hoje em dia, as pessoas (funcionários próprios ou terceirizados) responsáveis por esse serviço precisam ser muito qualificadas por causa da alta tecnologia embarcada nas máquinas e nos equipamentos destinados à terraplenagem, o que torna as peças bastante sensíveis. Um simples erro em uma manutenção corretiva pode causar seríssimos prejuízos, garante o presidente da Apelmat e do Selemat.

“Muitas vezes, amadores são contratados e o serviço sai mais caro do que se um profissional tivesse sido chamado, porque foi feito errado. A leitura dos equipamentos mais modernos deve ser realizada por computador, mas quem não tem esse material acaba desmontando tudo”, afirma ele. Quando uma máquina quebra, o mais indicado é utilizar os serviços de uma concessionária autorizada do fabricante, ainda que o valor cobrado seja mais alto.

Trabalhos de conservação preventiva também devem ocorrer periodicamente, e com tudo devidamente registrado, para atender às exigências dos clientes. “Para saber se o equipamento tem boas condições, as obras exigem que se apresente o check list, onde está registrado quantas manutenções foram feitas, o que já aconteceu com ela etc.”, comenta Welbi. Lubrificação e trocas de óleo e filtros, entre outros serviços, têm de ser realizados por meio de procedimentos consagrados nesse mercado (para conhecê-los, o empresário pode consultar fornecedores das máquinas e entidades ligadas ao setor) e com a consultoria de profissionais especializados.

Treinar a força de trabalho, inclusive para fazer o manuseio e a preservação das máquinas, é outro ponto que requer atenção. As empresas mais modernas do setor não têm mais a figura do profissional iniciante que aproveitava o horário de almoço do operador para entender como lidar com uma retroescavadeira ou um guindaste, aprendendo entre erros e acertos. “Isso não é mais possível, ao menos nas grandes obras. Os funcionários são obrigados a ter formação teórica e fazer simulações virtuais, depois vão a um campo de provas para aprender a parte prática e ganhar um certificado”, pontua Welbi. “Ainda assim, deve-se saber que esse empregado, cedo ou tarde, terá que começar a fazer o serviço para valer e só vai adquirir experiência com o tempo.”

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