Desafio é o que não falta

Em um cenário dificílimo para a economia brasileira, empresários do setor de locação de equipamentos da linha amarela ainda têm que lidar com muitos problemas específicos da área

As previsões para o desempenho da economia brasileira em 2016 mostram que a crise é uma realidade da qual nenhuma empresa conseguirá escapar. Estimativas recentes feitas pelo mercado financeiro apontam que este ano o PIB (Produto Interno Bruto) deve sofrer retração de 2,95% e a inflação pode chegar a 6,87%, valor superior ao teto da meta fixado pelo Banco Central (6,5%). Como se isso não bastasse, cada segmento ainda tem de lidar com seus próprios desafios, alguns grandes e de solução complexa em um país subdesenvolvido como o nosso. No setor de locação de equipamentos da linha amarela não é diferente.

Um dos principais entraves para o desenvolvimento do segmento no País é a questão tributária. O presidente da Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Máquinas, Equipamentos e Ferramentas (Analoc), Reynaldo Fraiha Nunes, diz que o interesse do governo em aumentar a tributação do setor é visto pelos executivos da área com preocupação. “Precisamos estar sempre vigilantes. Recentemente, nos fizemos presentes para evitar a cobrança do ISS (Imposto sobre Serviços) sobre locação de bens móveis”, diz.

Embora a Súmula Vinculante nº 31 do Supremo Tribunal Federal (STF) impeça a cobrança desse imposto sobre o aluguel de equipamentos, há casos em que as empresas são tributadas de forma indevida por causa da burocracia estatal. “Quando você lança uma nota fiscal eletrônica em São Paulo, o formulário não tem um campo para diferenciar a locação da mão de obra”, comenta Marcus Welbi Monte Verde, presidente da Apelmat e do Selemat. “As empresas deveriam ter o ISS cobrado apenas sobre 15% do valor da nota fiscal, referente à mão de obra. O serviço de locação em si, que corresponde ao restante do valor (85%), não deveria ser cobrado porque não é serviço. O problema é que na hora de preencher a nota fiscal não existe no site um campo separando uma coisa da outra. Ou seja, o empresário é obrigado a colocar o preço integral da nota (ou seja, 100%) e acaba sendo tributado em cima desse valor”, aponta.

Os impostos também ajudam a elevar o valor do frete, outro empecilho para quem atua na área. “Temos uma centena de portarias e leis que dificultam o transporte interestadual. As taxas cobradas pelos Estados são um grande problema”, lamenta Nunes. O executivo explica que, além dos diversos tributos, o transporte é encarecido por causa de fatores como os custos de mão de obra e de manutenção dos equipamentos, além do alto preço do combustível. “Reduzir o preço do diesel pode até contribuir, mas não é a solução”, completa.

Efeitos da recessão

Como não bastassem os desafios inerentes ao setor, atualmente o momento adverso no cenário econômico brasileiro é o grande vilão. A crise causa problemas como os juros altíssimos (a taxa Selic está em 14,25%), que dificultam o financiamento e aumentam a dívida das empresas. Em outra frente, a inflação encarece a aquisição de serviços e materiais básicos e necessários para o trabalho.

Nesse aspecto, o problema mais grave para o segmento é a queda brusca nos negócios por causa da falta de obras. Há dois grandes motivos para isso. Por um lado, o baixo consumo desestimula atores privados da construção civil – em especial, os investidores estrangeiros, que trabalham com o dólar, moeda que está valendo quatro vezes mais que o real – a aplicar seu dinheiro em novos empreendimentos. Por outro lado, as investigações da Operação Lava-Jato colocaram em risco as atividades de várias das construtoras mais importantes do Brasil e que estão entre os principais vetores para a realização de obras de caráter público.

O impacto é tão significativo que o setor opera atualmente, segundo estimativas das entidades que o representam, com 50% da capacidade. “As empresas estão com grandes estoques de equipamentos e altos índices de desemprego e endividamento. Tudo isso acontece em função de termos acreditado que estávamos em uma economia estável e com investimentos em infraestrutura de longo prazo”, destaca o presidente da Analoc.

O cenário desfavorável levou as entidades do setor a realizar trabalhos, em parceria com outras instituições como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com o objetivo de pressionar as autoridades a criar medidas urgentes para trazer alívio e o reestabelecimento de um ambiente favorável aos negócios. Entre as principais demandas estão a queda nas taxas de juros, a retomada dos investimentos em obras públicas, a criação de incentivos e o aprofundamento das medidas de ajustes macroeconômicos – até agora feitas pelo governo de forma tímida. Também estão na pauta demandas antigas, mas não menos importantes, como o reconhecimento e a padronização jurídica das atividades do segmento e as reformas tributária e trabalhista.

Enquanto tudo isso não acontece, a pergunta que fica é: o que as empresas podem fazer a favor do segmento independentemente da ação de outros agentes? “Na atual circunstância, o desafio é reestruturar a gestão com foco na redução do mercado, o que exige uma nova visão de tamanho e de rentabilidade. E é preciso redirecionar as empresas para mercados ainda não explorados”, pontua Nunes.

As organizações setoriais fazem a sua parte, realizando atividades para orientar seus associados a tomar iniciativas que visam a amenizar os efeitos deste momento difícil para todo o setor produtivo no Brasil. “Na Apelmat, estamos tentando mostrar que é preciso reduzir custos e otimizar o equipamento, os transportes e tudo mais”, diz Welbi. Já a Analoc, de acordo com seu presidente, desenvolve ações para organizar o setor e padronizar processos.

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