Com o pé direito

Fabricantes da linha amarela buscam possibilidades de novos negócios e apostam que é possível crescer mesmo com as dificuldades econômicas atuais

Não há dúvidas de que 2016 será desafiador para o setor de máquinas de construção no Brasil. A crise política e o panorama de recessão para a economia do País fazem com que o ambiente de negócios seja extremamente hostil nos dias atuais – e, pior, sem a perspectiva de mudanças para o futuro próximo. Esse cenário tem levado empresas do segmento a traçar estratégias para sentir o mínimo possível os impactos negativos. Elas planejam otimizar esforços e reduzir custos, entre outras medidas, mas também querem buscar novas oportunidades para crescer mesmo em tempos de crise.

As estimativas econômicas para este ano dão motivos de sobra para os empresários colocarem as barbas de molho. Projeções do mercado financeiro apontam que o PIB vai encolher 3,01% e a inflação será de 7,26%. Além disso, o Estudo Sobratema do Mercado Brasileiro de Equipamentos para Construção, feito pela Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração, indica que o setor sofrerá retração de 2,1% em relação a 2015, enquanto a linha amarela deverá reduzir a comercialização de seus produtos em 3,7% e a categoria “demais equipamentos”, em 1,7%.

No entanto, surpreendentemente, esses números não desanimam os grandes players da área de equipamentos da linha amarela no País. Ao menos no discurso, a previsão deles para 2016 é cautelosa, mas otimista. A JCB do Brasil, por exemplo, acredita que terá expansão dos negócios na ordem de 10%, mesmo admitindo que o segmento deverá se manter estável — ou seja, com crescimento zero ou quase zero, bem distante do que aconteceu no início da década.

“Apesar de o setor de infraestrutura estar em desaceleração, queremos continuar ampliando a nossa atuação. Temos um compromisso com o desenvolvimento do mercado nacional e o crescimento da empresa no País”, diz Alisson Brandes, diretor de vendas e marketing da companhia. “Para este ano, traçamos metas com o objetivo de consolidar a rede de distribuição, assegurar a utilização da capacidade instalada na fábrica, localizada em Sorocaba, no interior de São Paulo, e recuperar a liderança em retroescavadeiras no Brasil. Além disso, planejamos investir R$ 50 milhões de 2016 até 2018 para oferecer tecnologia e qualidade aos nossos clientes.”

A Case Construction Equipment também não se intimida com as notícias negativas vindas dos economistas. A empresa planeja aumentar até dezembro a sua participação de mercado tanto em equipamentos leves (minicarregadeiras, miniescavadeiras e outros) quanto nos de maior porte, como escavadeiras hidráulicas e pás-carregadeiras acima de 18 toneladas, consolidando-se como uma marca que oferece a linha completa de produtos para terraplenagem.

Carlos França, gerente de marketing da companhia para a América Latina, afirma que a empresa tem a expectativa de que seus negócios melhorem em relação ao ano passado. “É claro que isso depende de que os anúncios de investimentos em infraestrutura feitos pelo governo sejam colocados em prática em 2016, que haja estabilidade econômica e que o segmento retome seu crescimento no decorrer do ano”, pondera. “Mas estamos procurando fazer a nossa parte. Por exemplo, temos o apoio do nosso banco, o CNH Industrial Capital, para oferecer recursos e linhas de crédito atrativas e compatíveis com o perfil dos nossos clientes.”

No entanto, caso as previsões mais pessimistas se confirmem e a situação continue ruim para o setor (e para o Brasil, no geral), o executivo garante que a empresa está mais do que preparada para enfrentar esse cenário. “Estamos no País há mais de 90 anos, conhecemos bem o mercado e já vivemos momentos de recessão e de crescimento. Por isso, temos uma planta industrial flexível, que está preparada para retomar os níveis de negócios que tivemos em 2013 e 2014”, afirma França.

Esforços individuais à parte, é fato que as companhias estão de olho nas ações do governo não apenas em relação à macroeconomia, mas também no que diz respeito a medidas que incentivam obras públicas, reconhecidas como a grande mola propulsora do setor no Brasil. “O nosso segmento é diretamente influenciado pelos movimentos político e econômico, bem como pelos investimentos e ativos fixos”, pontua França.

Roberto Marques, líder da divisão de construção e florestal da John Deere, também tem esperanças de que investimentos estatais em infraestrutura e logística voltem a acontecer no futuro próximo. Ele acredita que haverá interesse por parte dos governos na realização de novas obras públicas assim que as condições políticas e econômicas fiquem razoavelmente estáveis, pois o Brasil ainda é carente nessas áreas e grandes obras são polos geradores de emprego.

“O governo federal já sinalizou com a possibilidade de investimentos na construção civil. E temos oportunidades com o recém-lançado InfraPaulista, do governo do Estado de São Paulo, que pretende realizar projetos de infraestrutura em municípios paulistas”, diz Marques. De acordo com o executivo, além de confiar na retomada dos investimentos em um prazo relativamente curto, a empresa está de olho no médio e no longo prazo para manter a aposta no mercado nacional.

“Acreditamos que o País tem muito potencial de crescimento. Tanto que, recentemente, fizemos grandes investimentos, como a construção de duas fábricas em Indaiatuba, no interior de São Paulo, e estamos com uma rede de distribuidores consolidada, que atende a todo o território brasileiro”, conta. “Além disso, expandimos o Centro de Distribuição de Peças em Campinas, também no interior de São Paulo, e inauguramos um centro de treinamento para os nossos distribuidores.”

A New Holland Construction tem uma filosofia bem parecida. A companhia não deixa de promover investimentos mesmo com a crise porque desenvolve a sua estratégia de negócios no Brasil em médio e longo prazo, assegura o gerente de marketing de produto para a América Latina, Marcos Roberto dos Santos Rocha. “Por isso, seguimos trabalhando na evolução das nossas máquinas e no relacionamento com os clientes”, afirma.

De acordo com Rocha, as turbulências vistas hoje no setor não devem demorar muito a passar porque o governo está tomando medidas necessárias para a estabilização econômica e fiscal do País. “Além disso, o nosso mercado está cada vez mais maduro. O cliente não olha mais só o preço na hora de adquirir um equipamento, mas pensa em todos os custos que envolvem a vida útil de um produto, além da qualidade em si e da tradição da marca no mercado”, pondera. “E o Brasil ainda é deficitário em infraestrutura e transportes. Ou seja, essa é uma demanda que continuará a existir durante muito tempo no formato de desenvolvimento e, no futuro, manutenção.”

Locação é favorecida

Marques, da John Deere, afirma que a crise pode ser um terreno fértil para oportunidades desde que a empresa saiba utilizar o nível reduzido de atividades no mercado a seu favor. Por isso, é importante reforçar a identidade da marca e oferecer soluções criativas, garantindo que a negociação seja cada vez mais atrativa e garanta o retorno adequado ao cliente final.

“Se o menor interesse dos clientes em renovar suas frotas faz com que a população de máquinas existente no campo tenha maiores índices de utilização, então existe uma demanda superior por peças e serviços. Normalmente também surgem novas possibilidades no mercado de equipamentos usados e de aluguel, com preços mais favoráveis”, garante.

O diretor de marketing da Volvo Construction Equipment Latin America, Massami Murakami, aponta o setor de rental como um dos mais favorecidos pelo cenário econômico atual. O motivo para isso é a escassez de crédito e de financiamentos via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a aquisição de novo maquinário. Esse fator, somado ao aumento da taxa de juros, torna o aluguel mais vantajoso aos empresários.

“O Programa de Sustentação e Investimento (PSI), que oferecia taxa de juros negativa para compra, não é mais uma opção”, diz o executivo, que cita a mineração, o agronegócio e o setor florestal como outras áreas com bom potencial. De acordo com Murakami, apostar nesses e em outros nichos promissores é uma das metas da empresa para o mercado brasileiro neste ano. Aprimorar os processos produtivos e ajustar as operações ao tamanho da atual demanda pelo setor, medidas inevitáveis em um cenário como o atual, também faz parte da estratégia.

Em paralelo, a Volvo Construction Equipment quer continuar investindo no Brasil. “A nossa postura, e estamos treinando isso junto à nossa rede de distribuição e aos clientes, é de olhar para as oportunidades que estão no mercado em vez de mirar apenas o lado pessimista, de queda de demanda”, fala Murakami. Os planos da companhia para isso incluem o lançamento de produtos e a implantação de novas tecnologias, como o sistema de telemática CareTrack, que monitora equipamentos a distância para alertar o usuário da necessidade de manutenções.

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *