Primeiros passos

Empreiteiros unem forças em torno de um objetivo: conquistar melhorias

Vinte e seis corajosos empresários uniram forças e criaram a Apelmat. Era uma quarta-feira, 29 de maio de 1985, e um dos jornais à época, O Estado de S. Paulo, destacava na página principal as divergentes opiniões em relação à proposta de reforma agrária do governo Sarney, mas também repercutia um cenário econômico um tanto delicado: a possibilidade de aumento de impostos, alta nas taxas de telefone, correio e trens, além do congelamento do preço dos combustíveis até julho.

O Brasil experimentou um crescimento econômico significativo no fim dos anos 60 e início dos 70, durante a ditadura militar, que gerou investimento público em infraestrutura e apoio ao processo de industrialização. Além dos investimentos diretos do Estado, a economia brasileira recebia financiamento externo privado. Não à toa, muitas obras estavam a pleno vapor.

“Havia muita demanda. Era a famosa oferta e procura”, lembra José Dias, da Gonçalves & Dias, um dos fundadores da Apelmat. “Era uma correria, com muitas obras e pouca gente que trabalhava com terraplenagem, diferentemente de hoje. Naquele tempo, você saía na rua e te seguravam para fazer uma obra aqui e outra obra ali. Era um mercado muito promissor.”

Com mais investimento privado do que público, segundo Dias, havia muito serviço de escavação para a construção de prédios, além de muitos loteamentos. A pouca burocracia e a falta das atuais exigências que contemplam questões ambientais davam velocidade aos projetos.

“Tinha muita obra, mas não havia critério para cobrar”, lembra Dias. E esse foi um dos fatores que motivaram a criação da Apelmat. “Estávamos entre companheiros, que trabalhavam no mesmo ramo, sem ter um posicionamento sobre como funcionavam as coisas e, então, achamos por bem criar a associação”, afirma.

Por exemplo, não havia um entendimento sobre como cobrar pelo trabalho. O preço, geralmente, era 20% abaixo do valor da areia. “Isso não era uma coisa normal, porque cada um sabia do seu custo e tinha que cobrar em função do seu custo”, fala Dias.

O grupo de fundadores da associação já se conhecia de várias obras, e as primeiras conversas sobre a associação aconteceram na Rua Professor Vahia de Abreu, travessa da Avenida Santo Amaro, Zona Sul da cidade de São Paulo. Depois o grupo passou a se reunir no salão localizado em cima do Restaurante Gouvea, na Santo Amaro.

Portugueses em sua maioria, os empreiteiros tinham uma mentalidade empresarial diferente da atual, que é mais profissional. “Naquele tempo, o pessoal queria trabalhar, ganhar dinheiro”, conta.

Mas os ventos que sopravam sobre a economia brasileira mudaram de direção na década de 80. “Nesse período, o País viveu estagnação econômica, inflação descontrolada e pressão das dívidas”, pontua o professor Luis Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). “Esse é o retrato do Brasil, principalmente na segunda metade desse período, porque a primeira metade ainda vivenciou o resultado do bom desempenho dos anos 70.”

Considerada a década perdida, os anos 80 marcam o fim do ciclo de expansão que o Brasil experimentou no chamado Milagre Econômico. Também é um período que registrou queda da produção industrial e da economia, com altas taxas de desemprego e inflação.

Os consecutivos planos econômicos foram malsucedidos em atacar a inflação, que crescia e voltava mais forte após cada investida. “As ações não atingiam a raiz do problema”, comenta Machado. Foi nesse contexto que a Apelmat nasceu.

“Os brasileiros tiveram que se acostumar às mudanças constantes nas regras do jogo. Isso, para qualquer corporação, é terrível. Muitas empresas não conseguiram subsistir”, diz Machado.

O Estado de São Paulo viveu essa experiência em escala máxima. “Acompanhei reuniões de grandes organizações, da Fiesp, da Federação do Comércio e de outras entidades, e era desesperador. Com a inflação que tínhamos, com quatro dígitos, a visão era de curtíssimo prazo. A questão era sobreviver. E isso não ficava restrito aos donos de empresas, mas estava presente até mesmo no convívio social. Cada um estava preso ao seu umbigo.”

Talvez esse contexto explique, em parte, a dificuldade em emplacar um dos projetos da associação: levar adiante a ideia de que era preciso trabalhar com uma margem de lucro que considerasse os custos operacionais e fazer ações que contribuíssem para que algumas dessas despesas fossem reduzidas.

“Quando fizemos a Apelmat, queríamos que o nosso custo baixasse. O pensamento era fazer uma compra maior de itens como pneus para caminhão, óleo de motor etc. e repassar o material entre os participantes do negócio pelo preço do custo que tivesse sido negociado”, explica Dias. Mas a ideia não saiu do papel.

Houve algumas tentativas de levantar entre as empresas associadas quais eram os itens de que elas mais precisavam e quanto gastavam por mês. Foi elaborada uma planilha na qual os empreiteiros poderiam indicar, por exemplo, quanto consumiam de óleo lubrificante por mês e qual o gasto que tinham. “Não devolviam a pesquisa. E nós sempre colocávamos na mesa: precisamos levantar o que comprar. Mas o pessoal saía fora.”

Quanto custa?

A fim de estabelecer um parâmetro para o preço dos serviços, a associação, começou a discutir quais custos impactavam o valor final cobrado dos clientes. “Hoje os custos de uma empresa servem de referência, mas naquele tempo não”, lembra Dias.

Por quatro anos o tema foi debatido entre os associados, até o dia em que um consultor foi contratado para apontar a real despesa que uma empresa tinha. “Montamos uma tabela, num quadro-negro, para mostrar quanto custava o equipamento, a parte rodante dele, o operador, o combustível etc.”, conta o fundador da associação.

Mesmo assim, depois de tudo bem explicadinho, mas diante do período de crise, com a escassez de obras, o grande ponto entre os empreiteiros era conseguir trabalhar, mesmo com margens reduzidas. “Afinal, muita gente tinha comprado caminhões e máquinas de forma financiada e tinha que pagar as contas”, fala Dias. “E ainda achavam que a associação tinha que arrumar serviço para eles – e essa não era nem obrigação nem o objetivo da Apelmat. Estávamos ali para orientar.”

O objetivo inicial da Apelmat foi alcançado: reunir empresários do setor. “No começo, um monte de portugueses se uniu, começou a se ajudar e, a partir daí, outras pessoas apareceram porque viram que as coisas iam bem”, diz Dias. “A minha gestão como presidente da associação foi para aglutinar o pessoal e fazer alguma coisa em benefício do empreiteiro.” Uma delas foi o consórcio de caminhões e de caçambas para caminhão.

Dias afirma, sem titubear, que se tivesse de fazer tudo de novo, faria. Mesmo não tendo levado a cabo tudo o que foi planejado, o saldo é positivo. “Disso não tenho dúvida. Afinal, você não faz nada sozinho”, completa.

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