Retrato 3×4

Mesmo distante do padrão norte-americano, o mercado de locação de equipamentos tem conquistado seu espaço no Brasil

 

No setor de linha amarela, de todas as máquinas vendidas, cerca de 30% foram destinadas para locação. Nos Estados Unidos, esse percentual é de 60%.

“A frota comercializada nos últimos cinco anos foi de 150 mil equipamentos. De seis a dez anos atrás, o desempenho era menor que 150 mil. E de 11 a 15 anos, esse número cai pela metade. Ou seja, o segmento de linha amarela cresceu muito. Com isso, a frota também aumentou e o que escutamos hoje, principalmente entre os locadores, é uma reclamação geral diante de um mercado descompassado, no qual há maior oferta do que demanda”, fala Eurimilson Daniel, vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema). “Os locadores precisam se posicionar dentro de um cenário novo.”

Investimento e facilidade de crédito para a aquisição de novas máquinas são dois fatores que impulsionaram, nos últimos anos, o segmento de rental na área da construção, gerando um crescimento da demanda e das empresas do setor.

O otimismo contagiou os locadores, que fizeram novas aquisições, ampliando a frota. Porém, de 2012 pra cá, as grandes obras que estavam em perspectiva não saíram do papel e a cautela tomou o lugar da confiança. Tanto as companhias maduras quanto as que abriram as portas vislumbrando um mar de oportunidades se ressentiram com a mudança na direção do vento.

“Não podemos simplesmente dizer que as empresas que não vão bem irão sair do mercado”, comenta Daniel. A política econômica atual não atrai investidores novos para o negócio, o que afeta o empreendedorismo, e entre as empresas consolidadas a motivação para investir é muito menor do que foi no passado.

“Em uma pesquisa feita pela Sobratema, perguntadas se tinham a intenção de sair do setor, as empresas responderam que não. Por outro lado, afirmaram que pretendiam diminuir investimentos”, observa o executivo. “A economia não permite avanços fortes em aplicações, e nosso setor demanda alto investimento. Somos dependentes da nossa capacidade de investir”, salienta.

Para Marcus Welbi, presidente da Associação Paulista dos Empreiteiros e Locadores de Máquinas de Terraplenagem e Ar Comprimido (Apelmat) e do Sindicato das Empresas Locadoras de Equipamentos e Máquinas de Terraplenagem do Estado de São Paulo (Selemat), os diferentes atores que atuam no mercado de locação vivem momentos distintos. “Entre os locadores, há falta de qualificação, profissionalismo e organização do setor. Os dealers também sofrem as consequências da crise na construção civil”, pontua. “As empreiteiras pequenas é que são privilegiadas, por terem muitas ofertas de prestação de serviços.”

Para Vicente Cracasso, diretor comercial da Shark Máquinas e da Multirental, o mercado, de forma geral, está retraído e com poucas oportunidades em São Paulo. “Não existem grandes obras e a disponibilidade de máquinas é alta, induzindo a um valor de locação abaixo do planejado e expondo as empresas a riscos, já que a manutenção é um item preponderante no negócio”, afirma.

Considerando o Brasil, especificamente no Norte e no Nordeste há grandes projetos. “Porém por diversos fatores acabam atrasando e muitas vezes são interrompidos durante a obra, seja por falta de verba, questões ambientais etc. Isso sinaliza um período de baixa até o fim do primeiro trimestre de 2015”, fala Cracasso.

Segundo o executivo, outro ponto relevante nesse contexto é o grau de exigência nos grandes contratos: equipamentos com idade mínima de cinco anos, obrigando a locadora a fazer novos investimentos sem uma remuneração compatível.

O melhor dos mundos

Ainda assim, Daniel, que também é diretor da Escad Rental, acredita que o cenário é positivo para o setor de locação. “As empresas não investem para comprar e decidem locar. Estamos percebendo isso”, disse durante entrevista coletiva de abertura do M&T Peças e Serviços 2014.

Para Afonso Mamede, presidente da Sobratema, as empresas optam, primeiramente por usar a frota própria, depois por alugar e, por fim, por comprar. “O melhor é a locação. Alugo pelo tempo que preciso e não tenho de lidar com frota ou funcionário. Além disso, se tenho obra hoje e amanhã não, o equipamento fica parado”, comentou também na abertura do M&T 2014. “Hoje as empresas de construção compram um parque menor. O mínimo é próprio, o restante é alugado. A locação é fundamental.”

Mas por que o Brasil ainda não registra o mesmo índice norte-americano?

Segundo Daniel, o percentual de locação e de compra é decidido em função da obra. “O que ocorre é que empresas de construção têm uma facilidade até maior na rapidez de fazer o financiamento para atender à sua necessidade. Essa é a primeira questão que as coloca à frente dos locadores. O segundo ponto é o poder de negociação maior. Além disso, já existe uma capacidade de financiamento tomada pelos locadores”, explica.

Outra explicação aponta para o fato de que o setor de rental está caminhando para alcançar a maturidade, o que já é realidade em mercados externos.

O que esperar de 2014 e dos próximos anos?

A sondagem O Mercado Brasileiro de Equipamentos para Construção, elaborado pela Sobratema e divulgado durante o M&T Peças e Serviços Congresso, ouviu um grupo de 35 empresas do segmento de construção.

Quarenta e um por cento delas, que no conjunto movimentam uma frota de aproximadamente 19 mil equipamentos, esperam um volume de negócios melhor ou muito melhor para 2014 em comparação com o ano passado. Já as empresas que acreditam que os negócios serão piores ou muito piores do que em 2013 totalizam 33%.

Segundo as projeções feitas por Brian Nicholson, economista e consultor responsável pela pesquisa, o mercado de máquinas da linha amarela deve apresentar neste ano um declínio de vendas da ordem de 7%.

As incertezas apontadas por Nicholson no nível setorial foram referendadas pela análise conjuntural feita pelo economista Rubens Sawaya, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo o especialista, a situação econômica do País continua apontando para um desaquecimento. “A principal razão para o declínio econômico iniciado a partir de 2011 é o profundo corte feito pelo governo federal nos investimentos públicos destinados a infraestrutura, sobretudo a redução de R$ 50 bilhões no Programa de Aceleração do Crescimento”, observa.

Para Nicholson, o momento é marcado por uma incerteza quanto ao desempenho no curto prazo, em função de certa lentidão nas obras públicas, decorrente das dificuldades no licenciamento ambiental e liberação de verbas.

Para o vice-presidente da Sobratema, Mário Humberto Marques, esse adiamento temporário dos investimentos lança o foco sobre a manutenção das frotas e, paralelamente, reforça a locação. “Já vivemos isso antes, quando foi necessário racionalizar os custos e se optou por investir na gestão do parque de máquinas então disponível.”

Entre as vantagens que a locação de máquinas oferece, quando comparada à compra, está a disponibilização do valor que seria gasto em equipamentos e encargos adicionais; a oferta de acordo com o volume de trabalho, fazendo com que os gastos sejam proporcionais à demanda; e a responsabilidade de manutenção a cargo da locadora.

Outros benefícios são o aumento da capacidade de financiamento, o controle de custos, a utilização de máquinas adequadas e o apoio do locador.

Para Marques, até 2015 haverá uma reorganização do setor, com esforço acentuado de redução de passivos. Já a partir de 2016, deve ocorrer um desaparecimento acelerado de oportunistas, gerando um mercado mais competitivo. “Trata-se de um nicho de oportunidades no qual será preciso realizar desinvestimentos fora do core business, oferecer preços mais competitivos em relação ao custo próprio e demonstrar diferenciais competitivos, provando ao cliente que vale a pena locar mesmo com um custo unitário maior.”

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