O hoje e o amanhã

O cenário econômico atual e as perspectivas para a economia brasileira

Por Vitor França*

O Brasil vive provavelmente a maior crise econômica de sua história. O PIB deve recuar mais de 3% em 2016, após ter registrado queda de quase 4% no ano passado. Será a primeira vez, desde a década de 1930, que a economia brasileira apresenta retração por dois anos consecutivos. A renda per capita deve cair pelo terceiro ano seguido, assim como as vendas do varejo paulista, que recuaram 3% em 2014, 6% em 2015 e continuarão em retração em 2016, segundo dados e projeções da FecomercioSP. A taxa de desemprego, com isso, já ultrapassou os 11%. No comércio de bens e serviços do Estado de São Paulo, mais de 260 mil postos de trabalho foram extintos em um ano, de acordo com levantamento da federação pautado nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A atual recessão, entretanto, tem características diferentes das convencionais, que se dão normalmente dentro dos ciclos econômicos, resultado de períodos de euforia e excesso de investimentos, por exemplo, ou reflexo de choques externos. A crise brasileira é, antes de tudo, uma crise de confiança. Uma evidência disso está no pessimismo de empresários e consumidores, apontado nos indicadores de confiança calculados pela FecomercioSP – que, ao longo de 2015 e 2016, atingiram os patamares mais baixos da história.

É difícil determinar o início exato de uma crise, normalmente resultado da conjunção de uma série de fatores, mas o fato é que intervenções equivocadas do governo realizadas a partir de 2012 desestruturaram setores-chave da economia, como o energético, enquanto subsídios para grupos específicos resultaram em concentração de mercado e ineficiência. Problemas estruturais, como o do crescimento dos gastos da Previdência Social, foram deixados de lado ao longo da última década, encobertos, de certa forma, por um cenário internacional favorável ao Brasil.

A conjuntura internacional, porém, mudou. Ações governamentais equivocadas geraram desconfiança nos investidores – os investimentos estão em queda desde o segundo semestre de 2013. Apesar do recuo das receitas decorrente do enfraquecimento da atividade econômica, o governo seguiu expandindo os gastos, o que resultou em déficit das contas públicas. Com os déficits, a dívida cresceu e, junto com ela, a desconfiança dos investidores. O País acabou perdendo o grau de investimento nas principais agências internacionais de classificação de risco.

Enquanto a crise se agravava, o governo não parecia convicto sobre o diagnóstico apresentado pelos principais empresários e economistas do Brasil, não trazia propostas nem demonstrava capacidade de articulação política para contornar o problema. Com isso, perdeu o apoio da população e do Congresso.

Tudo indica que a má administração das contas públicas e a perda de apoio político e popular levem ao impedimento da presidente Dilma Rousseff. O processo foi devidamente avaliado pelo STF, e a admissibilidade do pedido foi aprovada pela Câmara e pelo Senado. O vice-presidente Michel Temer assumiu interinamente a Presidência por seis meses, enquanto o processo é julgado.

Retomada da confiança

O fundo do poço, porém, parece estar ficando para trás. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FecomercioSP subiu em junho pela primeira vez desde janeiro de 2013 na comparação entre o mês e o mesmo mês daquele ano, interrompendo, assim, 40 meses consecutivos de queda nessa base de comparação. Após seis meses de relativa estabilidade em patamares próximos aos menores já registrados, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) também subiu em junho.

O crescimento dos indicadores parece simbolizar uma espécie de voto de confiança para a nova equipe econômica, o qual, porém, tem prazo de validade. Para que a confiança continue crescendo, é necessário que haja alguma entrega efetiva, como reformas estruturais, ajuste das contas públicas com corte de gastos – e não aumento de impostos –, aprovação do teto de despesas do setor público e privatizações.

As medidas divulgadas até agora e a rapidez com que elas vêm sendo anunciadas parecem estar animando consumidores e empresários.  No entanto, se esse ímpeto inicial não se confirmar em mudanças efetivas, os agentes podem voltar a ficar desanimados, minando assim a esperada retomada do consumo e dos investimentos.

Caso a tendência de melhora das expectativas se consolide, porém, o ano deve terminar melhor do que começou para o comércio, com vendas superiores no Natal na comparação com a data em 2015. Ainda diante de muitas incertezas, o consumidor mantém-se conservador, mas pouco a pouco tende a voltar às lojas, à medida que um cenário menos pessimista vai se desenhando. Aquele que hoje compra apenas o indispensável, ao retomar a confiança diante um cenário mais previsível, tende a retomar seus planos de consumo mais ambiciosos, como a troca do carro ou a reforma da casa. O empresário, por sua vez, tende a interromper os cortes de funcionários e retomar seus planos de investimento à medida que começa a acreditar na melhora das vendas.

Espera-se que a partir do segundo semestre o cenário esteja mais claro e que medidas de racionalização do setor público e de retomada de investimentos reaqueçam definitivamente a economia após a maior crise econômica da história do País.

*Vitor França é assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

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