A esperança é a última que morre

Empresas do setor de gruas, guindastes, plataformas aéreas e manipuladores telescópicos acreditam em um futuro melhor

Nenhum setor está ileso aos efeitos da crise econômica brasileira. Os grandes representantes do mercado de gruas, guindastes, plataformas aéreas e manipuladores telescópicos garantem que o momento é de queda nos lucros em razão da resistência das construtoras em investir na compra de equipamentos e na expansão dos negócios. E esse cenário, que prejudica também as empresas que alugam maquinário, deve perdurar ao menos até o fim de 2016, com chances de se estender por mais tempo.

“Com a variação do câmbio e incertezas politicas e econômicas, o empresário não consegue fazer um plano financeiro que justifique o investimento”, afirma Luciano Dias, vice-presidente de vendas da subsidiária brasileira da Manitowoc. “A utilização das empresas de serviços ainda permanece baixa, e ter mais máquinas à disposição faz com que os preços da locação baixem. Esses fatores, aliados à variação no câmbio, levam o bem de capital a perder rentabilidade.”

Uma das consequências do ambiente instável da economia nacional é a insegurança dos empresários do setor, que se veem obrigados a fazer o que for preciso para sobreviver. Como resultado, há um “clima de guerra” entre os concorrentes: para atender os clientes, que hoje têm maior poder de barganha, são feitas muitas concessões. O resultado, porém, não é como o esperado.

“Não aumentamos os nossos preços há cinco anos e mesmo assim a demanda não retorna. O usuário final não aceita a flutuação do câmbio, que é um problema que depende muito mais da nossa economia do que do fabricante”, fala Dias. “Acreditamos plenamente que esta é uma fase como várias outras por que passamos. Mas não podemos ser muito otimistas. A crise ainda continuará pelo menos até o fim do primeiro quarto do ano de 2017.”

A queda na produtividade das companhias do setor está intimamente relacionada a uma maior ociosidade na construção civil, gerada, em parte, pela crise econômica, responsável pela redução de investimentos privados e de iniciativas do poder público como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida.

O fim das obras de infraestrutura e construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014 é outro fator a ser considerado. A diferença é que, nesse caso, seus efeitos já eram esperados em razão da sazonalidade dos projetos.

O quadro foi agravado diante da péssima situação administrativa da Petrobras, que levou a estatal a diminuir suas atividades de exploração de óleo e gás, que representam um grande filão para as fabricantes e locadoras de equipamentos de construção civil. Em paralelo, houve a redução do preço do barril de petróleo, dos minérios e de metais como o cobre, desestimulando ainda mais o setor. Esse fenômeno, aliás, também ocorreu em vários outros países da América Latina.

Os países desenvolvidos estão em uma fase bem diferente, o que é um alívio para as empresas multinacionais do segmento. Na Oceania, por exemplo, as vendas de guindastes, gruas e equipamentos afins estão em ascensão. A Europa é outro mercado interessante, assim como os Estados Unidos, em que o setor de energia demanda máquinas de grande porte.

“O segmento de gruas-torres está num momento muito bom, com mais de seis meses de produção vendida. Por isso, a empresa acredita que será possível atingir a meta preestabelecida no ano passado em seu plano de negócios”, assegura o vice-presidente de vendas da Manitowoc.

Passado e futuro

O cenário de crise não se parece em nada com o que aconteceu por aqui no início desta década. Na época, várias multinacionais do setor se instalaram no Brasil por meio de parcerias com representantes locais, seguindo o modelo da bem-sucedida joint venture, feita em 2001, entre a holandesa Mammoet, maior empresa de movimentação de carga do mundo, e a brasileira Irga. Um exemplo foi a união entre a Koch Metalúrgica e a austríaca Palfinger, em 2013.

Esse movimento, criticado pelas companhias locais por supostamente ser uma concorrência desleal, não durou muito tempo. Por causa da baixa demanda nos anos seguintes, parte das organizações estrangeiras cortou ou diminuiu as atividades no País. “Os estrangeiros vieram para cá porque o mercado estava em baixa nos países em que operam mas aquecido no Brasil. Hoje em dia, com a situação inversa, aquelas que continuam aqui só tomaram essa decisão por uma questão estratégica de logística”, explica Luciano Dias.

É possível também que as multinacionais que ainda estão no Brasil compartilhem da esperança alimentada pelos empresários nacionais de que a situação melhore no futuro próximo, em dois ou três anos. Para que isso se torne realidade, o diagnóstico é unânime: a União tem que entrar nos eixos sob o ponto de vista econômico e político. Só assim o governo poderá reativar os seus investimentos em infraestrutura, mais do que necessários em um país que tem sérios problemas em transporte, logística, saneamento básico e fornecimento de energia. Essa medida voltaria a gerar demanda por guindastes, gruas e outros equipamentos usados na construção civil.

“Vejo o nosso setor maduro e com muito espaço para crescer, mas necessitamos de obras de infraestrutura para que possamos deslanchar novamente. Não acredito mais que teremos uma situação tão boa quanto de 2007 a 2010, mas imagino que o cenário estará bem melhor daqui a dez anos”, afirma Dias. “Analisando de outra forma, quando a economia permitir, o mercado vai retomar o ritmo com mais propriedade e com muito mais a oferecer.”

Enquanto isso não acontece, cada empresa adota a estratégia que julga mais conveniente para se manter enquanto não encontra condições de dar um salto expressivo nos negócios. A Manitowoc, por exemplo, está buscando associar a oferta de bons produtos a mais qualidade e criatividade no setor de pós-vendas. Além disso, trabalha com o objetivo de reorganizar sua estrutura interna, reduzindo custos e melhorando a produtividade da mão de obra.

Outra gigante do setor, a Liebherr, decidiu reforçar a aposta na recuperação da economia brasileira. A empresa inaugurou em maio deste ano um galpão com 21 mil metros quadrados de área construída e 5 mil metros quadrados de área coberta em Guaratinguetá (interior de São Paulo), voltado aos setores de vendas e pós-vendas de guindastes móveis sobre esteiras e pneus. Além disso, deve iniciar em breve as atividades de uma nova fábrica para a área de componentes e está finalizando a construção de um novo galpão, que servirá como centro de distribuição de peças para todo o Brasil.

De acordo com informações da assessoria de imprensa, a companhia também está investindo na exportação de guindastes de torre para a América do Sul e o México. Em relação à manufatura dos produtos, os esforços estão sendo direcionados no sentido de melhorar os guindastes móveis sobre esteiras e pneus. Entre as inovações realizadas, está o uso de materiais mais nobres para aumentar a carga útil dos equipamentos e a adoção de novos sistemas de patolagem assimétricos.

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *