Com tudo em dia

Empresas de locação de equipamentos para a construção civil podem atuar em licitações e parcerias com construtoras, mas para isso precisam estar bem preparadas para o trabalho

Quando uma pequena ou microempresa atinge taxas constantes de crescimento e tem boas perspectivas, os gestores geralmente passam a pensar em expandir as atividades. Nesse instante, muitos decidem apostar em dois caminhos: participar de licitações e buscar parcerias com grandes construtoras. Do pensamento à concretização do plano, porém, há um longo caminho a percorrer.

Se quiser participar de licitações e fazer negócios com a administração pública, é fundamental que a empresa esteja 100% formalizada e regular do ponto de vista fiscal e trabalhista. Embora a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa tenha eliminado boa parte da burocracia, facilitando a entrada nesse mercado, algumas exigências precisam ser cumpridas: o CNPJ deve permanecer ativo e limpo, o Fundo de Garantia dos funcionários tem de ser recolhido e todos os tributos devem estar quitados. Tudo isso parece simples, mas em um País onde a informalidade ainda é muito presente, essas condições podem se tornar um grande obstáculo.

“Licitações públicas requerem um atendimento muito rígido em relação à documentação exigida, tanto de regularidade fiscal quanto de capacitação técnica. As demandas variam entre os diversos órgãos e tipos de contrato. Também é essencial que as empresas mantenham suas obrigações em dia para evitar atrasos na obtenção das certidões e que os acervos técnicos estejam atualizados”, garante o engenheiro civil e professor André Choma, autor do livro Como Gerenciar Contratos com Empreiteiros (Editora Pini, 2007)        .

Em relação à estrutura, a empresa precisa estar muito bem organizada em todas as suas atividades. A administração do estoque é uma das mais importantes, segundo o consultor do Sebrae-SP Júlio Cesar Durante. “Se não houver controle, podem acontecer situações em que você precisa fornecer cem itens, por exemplo, e tem apenas 80 disponíveis. Daí terá que comprar os outros 20 a um preço maior e ficará sem matéria-prima para atender a outros clientes”, explica. Ele diz que outro ponto fundamental são os custos dos produtos e a margem de lucro para saber como trabalhar o preço de venda. “É comum que a empresa tenha de oferecer preços menores que o do mercado para ganhar o processo licitatório, mas não pode sair no prejuízo”, afirma.

Há um detalhe fundamental e que, por incrível que pareça, passa despercebido em muitos casos: ler atentamente o edital. “Tem que saber tudo o que está escrito – a data, o prazo, a forma, o local de entrega etc. No caso de um pregão que exige a entrega dos documentos em determinado horário e lugar, o gestor tem que estar lá ao menos meia hora antes. Um ou dois minutos de atraso são suficientes para excluir o participante de uma concorrência pública”, completa Durante. Toda a legislação referente a licitações também precisa ser estudada com muita atenção, em especial a Lei Federal 8.666, de 2013, que regulamenta esse tipo de procedimento.

A companhia deve dar atenção especial para o fluxo de caixa e para o capital de giro durante o período em que se relacionar comercialmente com a administração pública. Por um simples motivo: muitas vezes, o pagamento é recebido depois da data prevista e o atraso pode ser grande. Esse problema acontece quando o governo não tem arrecadação suficiente para quitar a dívida, reconhecida no momento da entrega do produto ou do serviço em um documento chamado empenho. Situações do tipo não são incomuns, portanto o empresário deve ter reserva financeira suficiente para pagar suas despesas e custos sem depender da entrada dos valores acertados nas licitações.

Por essa razão, a empresa deve comprometer no máximo 60% da receita com o poder público. “Os outros 40%, relativos aos negócios com o setor privado, são suficientes para o pagamento de salários e outros gastos. Essa atitude garante a manutenção da estrutura necessária para que o empreendimento continue ativo”, assegura o consultor do Sebrae-SP. “Por mais que os governos sejam ótimos clientes, capazes de adquirir vários produtos e alavancar o faturamento, não é bom colocar todos os ovos na mesma cesta.”

Recomenda-se também que o empresário comece a trabalhar no setor de licitações com cautela, disputando pequenos negócios para entender como funciona esse mercado e quais serão os impactos dentro da organização. Com o tempo e a experiência, se tudo der certo, dá para sonhar com passos mais ousados, como concorrências em outros países. Mas, para que isso aconteça, diversas barreiras deverão ser superadas. “Esse mercado é interessante, uma vez que recursos externos agregam valores e melhoram a renda das empresas e até da economia do país, mas a empresa deve se preparar para disputar espaço com organizações fortíssimas e atender a exigências que incluem a língua, a cultura e especificações técnicas”, explica Durante.

Parcerias

Buscar parcerias com construtoras é uma alternativa que pode ser adotada com sucesso pelas micro e pequenas empresas do setor de aluguel de equipamentos para a construção civil: estimativa de 2014 aponta que a locação atende a cerca de 30% da necessidade no setor de infraestrutura. E a cooperação pode ser muito produtiva para as duas partes: as companhias de menor porte vendem serviços ou produtos (normalmente segmentados, de rápida execução e com custo reduzido) às grandes corporações, que não conseguem realizar o trabalho com o mesmo padrão de rapidez e de qualidade por conta do gigantismo das atividades que exercem.

“As grandes empresas são como um transatlântico, demoram para fazer um movimento, enquanto as micro e pequenas têm muito mais agilidade, especialmente porque atuam em uma única fase do processo”, afirma o consultor do Sebrae-SP. Para ele, a especialização é o principal critério que leva as organizações maiores a se decidirem por esse tipo de contratação.

André Choma aponta a rapidez como outro critério significativo para a escolha de um potencial parceiro. “Grandes empresas procuram por uma estrutura técnica e de manutenção que possa prestar pronto atendimento às demandas e possa rapidamente se adaptar às mudanças de cenário. Elas buscam quem possa dar suporte imediato às suas necessidades, pois atrasos e problemas na execução podem representar grandes prejuízos em contratos de obras. A disponibilidade de mão de obra e equipamentos para pronta mobilização também conta pontos importantes”, justifica.

Assim como nas licitações, as micro e pequenas empresas que desejam firmar contratos com empreiteiras têm que estar com as obrigações fiscais e trabalhistas em dia. Além disso, o gestor é obrigado a analisar o contrato de parceria com muito cuidado: afinal, sua companhia não possui apenas deveres, mas também direitos que precisam ser garantidos. Esse documento deve incluir detalhes sobre as formas de pagamentos e as responsabilidades das duas partes envolvidas no acordo, entre outras informações importantes.

Outra exigência é adotar as regras de segurança de trabalho. Canteiros de obras são ambientes propícios a acidentes e, se eles acontecerem, os contratantes podem ter uma bela dor de cabeça. Além disso, as empresas devem ter uma estrutura boa o bastante para agir com autonomia (e com competência, claro) no momento de prestar serviços para as construtoras, que não têm mão de obra nem tempo para vistoriar todas as atividades que a subcontratada deve executar.

Antes de fechar contrato com as empreiteiras, a companhia precisa avaliar se conta com o caixa necessário para bancar os custos e as despesas relativas ao cumprimento das demandas dos contratantes conforme as condições previamente estipuladas. “Grandes empresas têm processos que, se não forem respeitados pelas parceiras, podem representar retenção de honorários ou multas”, afirma Choma. “O capital de giro também deve ser suficiente para custear os gastos necessários para manter todas as suas outras atividades, uma vez que contratantes do gênero costumam ter prazos mais longos para realizar pagamentos.”

Falhas de planejamento e erros na documentação podem comprometer boas parcerias. “É preciso entender que as contratantes são cada vez mais gestoras de contratos e menos construtoras. Ou seja, elas buscam nos subcontratados soluções completas, e não apenas o fornecimento de mão de obra e equipamentos”, explica o engenheiro civil.

Veja +

Confira no site da Apelmat algumas particularidades interessantes das concorrências públicas na Europa, nos Estados Unidos, na China e no Japão.

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *