O impacto dos acidentes de trabalho em nossa economia

Por Wilson de Mello Jr.*

Não é mais possível assistirmos passivamente ano após ano ao elevado número de acidentes de trabalho que ocorrem em nosso País sem que se tomem ações que visem a mudar esse quadro. Além das perdas humanas que sofremos, é assustador o impacto que causam em nossa economia.

Se avaliarmos os números divulgados pelo último anuário estatístico da Previdência Social com dados de 2007 até 2013, verificaremos a ocorrência de algo em torno de 5 milhões de acidentes de trabalho que, segundo estudo do professor José Pastore, custaram ao País R$ 70 bilhões por ano. Para chegar a esse número, Pastore somou as despesas para as empresas, para a Previdência Social e para a sociedade.

O desembolso das companhias envolve os valores que elas gastam com o seguro de acidentes de trabalho, com o tempo perdido, com as despesas relativas aos primeiros socorros, com a perda de materiais e equipamentos, com a interrupção do trabalho, com novos treinamentos da mão de obra acidentada, com despesas administrativas e, em alguns casos, com as ações judiciais em função do acidente.

Só em 2013 ocorreram 717.111 acidentes, com 2.797 mortes e 14.837 aposentadorias por invalidez. A indústria da construção foi responsável por mais de 8% do total de acidentes. Uma conta rápida e básica baseada nos números acima nos leva a estimar que cada acidente custou algo em torno de R$ 100 mil, mesmo sabendo que existem acidentes mais simples e outros de grande monta.

Conforme o anuário divulgado pelo Ministério do Trabalho, no período de 2011 a 2013 ocorreram 1.344 acidentes envolvendo máquinas de terraplenagem e construção de estradas, ocasionando 37 mortes. Isso corresponde a mais de um acidente por dia. Em função desses fatos, tornam-se necessárias medidas concretas para elevar os níveis de qualificação dos profissionais envolvidos com equipamentos que atuam na indústria da construção e mineração.

Precisamos garantir que os treinamentos tenham carga horária mínima de duração e que os conteúdos programáticos realmente abordem todas as informações vitais de modo a garantir que as operações sejam realizadas com segurança e produtividade.

Devemos influenciar as pessoas que elaboram as normas regulamentadoras para que incluam as cargas horárias e os conteúdos programáticos também para os operadores de máquinas da linha amarela, assim como foi feito na NR 34, relativa ao trabalho na indústria da construção naval. Nessa norma, em seu anexo I, constam a carga horária e a temática a ser abordada para vários tipos de profissionais.

No mais, não basta apenas fazer um treinamento ou exigir o certificado de um operador. É preciso avaliar de forma confiável, responsável e criteriosa se as informações apresentadas a ele foram absorvidas, capacitando-o, de fato, a realizar seu trabalho com segurança.

Outro ponto importante, antes mesmo de qualquer treinamento, é identificar se o profissional que irá trabalhar com um equipamento da linha amarela possui o mínimo de aptidão que lhe permita realizar o trabalho com segurança e produtividade.

Para reconhecer se aquele candidato tem as habilidades necessárias para operar uma máquina, devemos ter em mente alguns aspectos sobre o que faz diferença em um operador.

Um bom operador:

1. Realiza movimentos simultâneos

2. Possui ação e reação rápida

3. Não perde tempo

4. Não realiza movimentos desnecessários

5. Não realiza deslocamentos desnecessários

6. Sabe respeitar os limites do equipamento

Esse operador também precisa ter:

1. Coordenação motora

2. Raciocínio de forma rápida e lógica

3. Capacidade de planejamento

4. Capacidade de concentração

5. Atitude

Sem uma clara visão das características pessoais que o profissional precisa ter, sem um processo de seleção adequado e sem um rígido treinamento, com qualificação e certificação realizadas por organismos idôneos, continuaremos a ter esse quadro de elevado número de acidentes em nosso País, com perdas de vidas humanas.

 

*Wilson de Mello Jr. é diretor de certificação e desenvolvimento humano da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema)

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *