Um país de oportunidades

Para o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, o Brasil está longe da decadência que vem sendo apregoada – ainda há boas e empreendedoras ideias, mas elas dependem de uma renovação de esperanças e de uma liderança política transformadora

Ministro da Fazenda entre janeiro de 1988 e março de 1990, durante o governo de José Sarney – período considerado dos mais difíceis da economia brasileira –, o economista Maílson da Nóbrega tem muita bagagem quando o assunto é crise. E, apesar da perspectiva não muito animadora que traça para o curto prazo, ele aposta nas ainda numerosas oportunidades que o País tem a oferecer. “Felizmente, o Brasil não está condenado à decadência, como já se começou a dizer. Os anos do PT nos legarão perdas enormes de dinamismo na economia, mas isso poderá começar a ser revertido no próximo governo, quando deve acontecer uma renovação”, afirma.

Aos 73 anos, Maílson esteve desde os 20 envolvido em ações governamentais, incluindo a formulação de regras para gerir a intervenção do Estado na economia. Mais tarde, como secretário-geral do Ministério da Fazenda, trabalhou na criação do sistema brasileiro de contas públicas e também atuou na organização da Secretaria do Tesouro Nacional e na reestruturação das funções do Banco Central. Durante o período em que esteve à frente do ministério, o economista avalia que deu os primeiros passos em direção à abertura da economia, às privatizações e à modernização das finanças nacionais.

Após deixar o governo, passou a se dedicar às atividades de consultor e, em 1997, foi um dos criadores da Tendências Consultoria Integrada. Permaneceu como sócio até julho deste ano, quando se desligou formalmente para se dedicar à produção de seu sexto livro e à função de palestrante, membro de conselhos de administração e colunista. Em seu currículo como autor constam títulos como “O Brasil em Transformação”, uma coletânea de artigos publicada em 2001, “O Futuro Chegou”, de 2005, e uma autobiografia, “Além do Feijão com Arroz”, que foi lançada em 2010.

Nóbrega acredita que hoje o empresário encontra dificuldades para vencer o pessimismo instaurado no País, um ceticismo que “tem origem na má gestão da economia pelo atual governo e nas enormes incertezas causadas por sua incompetência, pela intervenção equivocada na economia, pelos erros de diagnóstico e pelos riscos criados pela crise política”. Mas, segundo ele, tudo indica que esse ciclo esteja chegando ao fim. “O País continua com enormes oportunidades. Seus principais problemas estruturais estão mapeados. Há ideias excelentes circulando sobre como atacá-los, à espera de uma liderança transformadora. A simples mudança de comando do País já será em si um fator de renovação de esperanças”, assinala.

Revista Apelmat/Selemat As previsões apontam para um PIB negativo neste ano. O senhor concorda com essa perspectiva? Qual é sua expectativa?

Maílson da Nóbrega Concordo. O PIB deve cair em torno de 3% em 2015 e 1% em 2016 – neste caso, dependendo da evolução da crise política. A queda pode ser maior no próximo ano.

RAS Em sua opinião, até quando o Brasil enfrentará esta conjuntura negativa?

MN É provável que o País volte a crescer em 2017, mas a ritmo medíocre, inferior a 2% ao ano.

RAS O que poderá contribuir para que a situação seja revertida? Quais os principais setores capazes dessa reviravolta positiva?

MN Dificilmente será possível reverter essa situação, mesmo que a presidente Dilma Rousseff venha a ser substituída pelo vice-presidente Michel Temer. A reversão depende de mudanças estruturais para recuperar níveis satisfatórios de produtividade e de restauração da confiança. Embora esta última possa acontecer em parte com a eventual mudança de liderança, novos ganhos de produtividade – o principal motor do crescimento – dependem de reformas estruturais sem chance de aprovação até 2018. Mesmo assim, haverá setores que poderão exibir desempenho positivo, como serão os casos do agronegócio (ainda exibindo ganhos importantes de produtividade) e daqueles nos quais a depreciação cambial acarrete ganhos de competitividade interna ou externa.

RAS Qual é a vocação econômica do Brasil? Qual o papel da indústria e da agropecuária? Qual a importância do setor de serviços?

MN Não é possível apontar uma determinada vocação econômica para o Brasil. São muitas. O caso da agropecuária é inequívoco, dada a tecnologia desenvolvida nos últimos 40 anos, a qualidade de grande parte do empresariado do setor e a ampla disponibilidade de terras para ampliar a produção. Na indústria, há campeões que não dependem do governo, como são os casos da Embraer, de segmentos da construção civil, de bens de capital e do beneficiamento e industrialização de produtos rurais. Os serviços já representam cerca de dois terços do PIB e incluem setores de elevada eficiência, como o sistema financeiro, os supermercados e algumas áreas ligadas à eletrônica (caso dos jogos) e à tecnologia de informação. Mas no geral, infelizmente, os serviços ainda são muito ineficientes.

RAS No cenário pós-Lava Jato, como o segmento de construção civil pode se preparar para uma recuperação?

MN A demanda dos serviços da construção civil não depende das empresas. Sua recuperação tem a ver com a solução da crise política, a restauração do crescimento da economia – particularmente do investimento – e com condições para atrair interesses de investidores privados nas concessões de infraestrutura. Não sou otimista em relação a essas possibilidades nos próximos anos. Às empresas cabe preparar-se para conviver com um longo período de baixo crescimento da economia e, assim, da sua demanda específica.

RAS De que forma os conhecidos desafios de infraestrutura e energia vivenciados pelo Brasil poderão ser vencidos?

MN Vencer esses enormes desafios depende de restaurar um adequado ambiente de negócios, incluindo novas oportunidades de investimentos nas áreas de infraestrutura e de energia. O estrago causado pela desastrada intervenção no segmento de energia levará tempo a ser reparado. Será preciso repensar o setor e sua regulação para prevenir tais barbaridades no futuro. Na infraestrutura, onde as oportunidades são imensas, a retomada das concessões e dos investimentos depende da restauração da confiança e do estabelecimento de marcos regulatórios apropriados. Será preciso evitar o atual viés contra o lucro, que leva o governo à inacreditável postura de fixar a taxa interna de retorno dos respectivos investimentos.

RAS De que maneira o empresariado pode vencer o pessimismo generalizado e investir?

MN O empresariado não tem como, isoladamente, vencer o pessimismo que se instalou no País por razões alheias ao seu controle, como se sabe. O pessimismo, que às vezes se torna exagerado, tem origem na má gestão da economia pelo atual governo e nas enormes incertezas causadas por sua incompetência, pela intervenção equivocada na economia, pelos erros de diagnóstico e pelos riscos criados pela crise política.

RAS Falando especificamente para os leitores da nossa revista, é possível dizer o que eles poderão esperar para os próximos meses? Haverá investimentos na área de construção civil e infraestrutura? Serão de qual natureza?

MN Por certo haverá investimentos na construção civil e na infraestrutura, mas muito longe das necessidades do País e das expectativas das empresas. Não tenho informações para avaliar tendências de investimentos na Linha Amarela, mas tudo indica que as dificuldades são as mesmas. Felizmente, o Brasil não está condenado à decadência, como já se começou a dizer. Os anos do PT nos legarão perdas enormes de dinamismo na economia, mas isso poderá começar a ser revertido no próximo governo, quando deve acontecer uma renovação. O ciclo do PT no governo, tudo indica, está chegando ao fim. O País continua com enormes oportunidades. Seus principais problemas estruturais estão mapeados. Há ideias excelentes circulando sobre como atacá-los, à espera de uma liderança transformadora. A simples mudança de comando do País já será em si um fator de renovação de esperanças.

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