Socorro financeiro

No momento em que o cinto aperta – ou quando se planeja o crescimento da empresa –, uma saída é recorrer a recursos externos. Consultamos três especialistas para responder a dez perguntas sobre o tema

As motivações para a busca de recursos financeiros podem variar, indo de formar capital de giro e incrementar a produtividade da empresa até levar a cabo planos de expansão, passando por reduzir os custos de capital. Os objetivos podem mudar, mas as dúvidas e o “friozinho na barriga” ao pesar a decisão de assumir financiamentos são comuns à maioria dos empreendedores.

Para mostrar que a obtenção de recursos não é um bicho de sete cabeças, apesar de parecer, a Revista Apelmat/Selemat conversou com três especialistas no assunto – o consultor do Sebrae-SP Davi Jeronimo, o superintendente executivo da Caixa Econômica Federal Sérgio Cançado e o professor de finanças da Fundação Vanzolini Roberto Lima – e submeteu a eles as dez principais dúvidas que rondam os empresários. As respostas, que funcionam como uma miniconsultoria, você confere a seguir.

 

1. Quando é hora de procurar bancos ou investidores externos para a empresa?

Davi Jeronimo, do Sebrae-SP As empresas podem utilizar financiamentos de fornecedores, diminuir prazos de vendas, trabalhar com estoques de segurança e aplicar bem sua margem de lucro em investimentos. Só depois disso deverão buscar crédito no mercado.

Roberto Lima, da Fundação Vanzolini Uma companhia procura recursos externos quando suas necessidades são superiores ao lucro e aos recursos que os sócios queiram aportar na empresa. Na prática, ela também pode solicitar empréstimos para reduzir seu custo de capital. Companhias bem capitalizadas e com bom retorno operacional podem acessar financiamentos a custo inferior ao custo dos recursos próprios dos acionistas e, desta forma, aumentar o retorno obtido pelos sócios (processo conhecido como alavancagem financeira). Um exemplo são projetos de investimento em infraestrutura e em concessões nos quais uma empresa busca subsídios a custos inferiores ao dos recursos próprios de seus acionistas.

 

2. Onde procurar recursos financeiros para impulsionar o negócio? Quais são as principais fontes e qual é a mais apropriada para a empresa?

Davi Jeronimo, do Sebrae-SP Bancos de varejo, que têm taxas de juros e prazo curto; instituições de fomento como BNDES, Desenvolve SP, Finep, Fapesp (com menor taxa no mercado, carência e prazo mais longo); investidores-anjo e tradicionais; e cooperativas de créditos. O melhor empréstimo é aquele que tem baixa incidência de juros, prazo longo para pagamento e carência. Mesmo assim, a empresa vai precisar pagar o empréstimo total. Já no caso de investidores, é diferente. Eles assumem o risco do negócio para o sucesso ou para o fracasso e acabam até ajudando no modelo de negócio da empresa para ter seu capital recuperado rápido.

Sérgio Cançado, da Caixa Econômica Federal A empresa deve buscar, primeiramente, capital próprio dos sócios e acionistas. Em segundo lugar, empréstimos ou financiamentos bancários. E, na sequência, financiamento via fornecedores, linhas de fomento, que são estratégicas, ou capital de investidores ou novos acionistas.

Roberto Lima, da Fundação Vanzolini As companhias de capital fechado acessam o mercado de empréstimos basicamente por meio do sistema bancário. Empresas de grande porte têm como alternativa procurar recursos de investidores por meio do mercado de capitais, com a abertura de seu capital social. Na maior parte das vezes, estamos falando de companhias com faturamento anual superior a R$ 1 bilhão. Ainda que não exista valor mínimo requerido, as organizações menores têm dificuldade de arcar com os custos de se manter como empresa aberta listada em bolsa. Ao abrir o capital, a empresa se compromete com regras de governança e passa a ter seus resultados monitorados trimestralmente.

Companhias menores e de capital fechado podem acessar investidores no mercado de investidores profissionais. Eles normalmente se organizam pela criação de fundos de investimentos, que, dependendo do porte, podem ser chamados de private equity (PE) ou de venture capital.

Como definir a modalidade de recurso que se deve utilizar? Na escolha entre recursos por empréstimo e de investidores, a empresa tem que olhar para o investimento que está fazendo. A principal dimensão a ser observada é o risco. Para os de maior risco, aconselha-se optar por recursos de investidores (uma vez que os investidores dividem o risco) e, para investimentos de baixo risco, o ideal é utilizar recursos por empréstimo.

 

3. Como decidir quanto dinheiro é preciso obter? Como fazer uma captação de investimento mais eficiente?

Davi Jeronimo, do Sebrae-SP Antes de procurar uma instituição de crédito, o empresário deve fazer um planejamento estratégico e financeiro de pelo menos um ano para verificar quanto de capital será emprestado e qual o valor da parcela que será paga por mês. O importante é identificar onde esse dinheiro será aplicado na empresa, se é em máquinas e equipamentos, reforma de estrutura, necessidade de capital de giro, compras de produtos para o estoque etc.

Sérgio Cançado, da Caixa Econômica Federal Monte sua estratégia. O financiamento deve ser coerente com a necessidade de investimento ou de caixa da empresa. Por exemplo, evite tomar recursos de curto prazo para projetos de investimento.

Roberto Lima, da Fundação Vanzolini A decisão de quanto captar deve partir da premissa de um limite de endividamento. Empresas saudáveis apresentam baixo nível de endividamento. O que é baixo nível de endividamento varia de setor para setor. Para fazer uma boa captação, a companhia tem que ter um bom planejamento que permita o dimensionamento da quantidade de recursos de que irá necessitar em um prazo de no mínimo três anos.

 

4. Qual o melhor tipo de investimento? Se já está certo de que precisa de investidor, como o empresário deve avaliar qual fonte de capital de risco é a mais adequada para o momento da empresa?

Davi Jeronimo, do Sebrae-SP O melhor tipo de investimento é aquele que faz a companhia crescer, aumentar sua produção, ampliar sua estrutura, modernizar seus equipamentos e aumentar o grau de tecnologia de produtos, processos e da cadeia de suprimentos. Esses investimentos possuem uma taxa de juros menor no mercado por fazerem parte da garantia. Além disso, o risco é menor para a instituição de crédito, já que a empresa está em pleno crescimento e a possibilidade de pagar o valor adquirido é maior.

Roberto Lima, da Fundação Vanzolini Devem-se utilizar recursos de investidores para novos empreendimentos ou projetos em novas áreas de atuação, pelo fato de apresentarem maior risco. Projetos de expansão da empresa em produtos e mercados em que se atua devem ser financiados por empréstimos.

 

5. O que é crédito e como usá-lo de maneira sustentável? Qual a diferença entre crédito e outras formas de aporte de capital? Como usar o empréstimo a favor da empresa?

Davi Jeronimo, do Sebrae-SP O crédito é uma obrigação que a empresa tem com a instituição que emprestou; isso é corrigido e pago em determinado prazo. Deve ser usado com moderação, sempre em momentos cruciais da empresa: formação de capital de giro – para não pagar taxas altas de juros –, comprar um equipamento e não descapitalizar a empresa, pagar esse financiamento a longo prazo e não pesar no caixa, renovar o estoque, conseguir desconto com fornecedor, ou fazer uma reforma sem utilizar o capital de giro da empresa.

Roberto Lima, da Fundação Vanzolini O chamado crédito é a captação de recursos por empréstimos. Tem duas características básicas: prazo de devolução e custo (juros). Principalmente por ter um prazo de pagamento, o crédito tem a dimensão do risco. Para usá-lo de maneira sustentável, a empresa deve fazê-lo de forma limitada. As empresas no Brasil usam menos de 40% dos recursos de financiamento por crédito. Investimentos de baixo risco e que permitem o acesso a fontes de recursos subsidiados (agências de fomento e bancos de desenvolvimento) representam uma boa oportunidade de a empresa usar o crédito a seu favor, isto é, aumentando o retorno do investimento de seus sócios.

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