Crise não é o fim do mundo!

Empresários de sucesso mostram que decisões certas e muito trabalho podem fazer uma organização superar recessão econômica e fases ruins nos negócios

O péssimo momento da economia brasileira é um fato: em setembro, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) previu que o PIB nacional encolherá importantes 2,8% em 2015. Mas nem por isso o empresariado deve se limitar a reclamar da situação, cortar despesas, frear investimentos e talvez demitir colaboradores… A história está repleta de executivos que souberam enfrentar momentos complicados com criatividade e liderança, segurando firme o leme dos negócios e, após passar pela tempestade, deram a volta por cima, voltando a navegar em águas calmas.

Clodoaldo Nascimento, presidente da rede de idiomas YES!, é um desses exemplos de sucesso capazes de inspirar empreendedores que enfrentam tempos difíceis. No caso dele, os problemas não foram causados por abalos nas finanças do País, mas por uma decisão ousada: reformatar a empresa para se adequar às regras de franchising. Essa atitude representou, no início, a perda de 20 unidades da empresa.

“Algumas pessoas tinham regime de concessão de uso de marca e se mostraram resistentes às mudanças que passariam a ter que adotar. Outras não tinham o perfil adequado para o que queríamos e foram descontinuadas”, explica. “Em um primeiro momento isso foi um baque, pois o nosso plano era crescer. Mas, com a comercialização da primeira franquia, vimos que estávamos no caminho certo. E a continuidade das vendas das unidades franqueadas deu o ânimo que precisávamos para seguir em frente.”

A decisão de investir no sistema de franchising foi tomada em 2006, dois anos após Nascimento, que era proprietário de duas unidades da YES!, comprar a marca das herdeiras do fundador da empresa e assumir a presidência. O objetivo era padronizar todas as escolas que faziam parte da rede e expandir franquias para todo o Brasil, baseado nos resultados obtidos por ele em suas próprias unidades.

“Se dava certo para mim, por que não aconteceria o mesmo nas outras escolas? E aí é confiança total no que se tem em mãos! Acreditar muito e pensar grande”, afirma ele. Para cumprir essa meta, a empresa se associou à Associação Brasileira de Franchising (ABF), contratou uma consultoria e mudou a sede, a identidade visual e o material didático. Além disso, investiu fortemente em divulgação e abriu dez novas unidades.

A iniciativa rendeu frutos em pouco tempo: em 2007, apenas um ano após o início do projeto, a YES! ganhou o título de Melhor Franquia de Idiomas da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Entre outros prêmios que vieram depois, a empresa recebeu em 2015, pela décima vez consecutiva, o conceituado Selo de Excelência em Franchising, concedido pela ABF.

Atualmente, a rede de idiomas possui 151 escolas em todo o Brasil, sendo que apenas duas unidades são próprias. No ano passado, o faturamento da YES! foi de R$ 32 milhões, com 10% de crescimento em relação ao período anterior. Para este ano, a meta é de R$ 40 milhões e 200 unidades em operação, espalhadas por todos os Estados. São planos ousados para um cenário difícil da atividade econômica como o previsto para o Brasil, mas nem a crise é capaz de frear o espírito empreendedor de Nascimento.

“São em momentos como este que você consegue crescer, pois as oportunidades surgem de forma mais fácil. É preciso ficar atento a elas”, acredita. No caso de sua empresa, o alto índice de desemprego – a taxa ficou em 8,3% no segundo trimestre de 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – gera uma nova demanda, formada por gente que deseja aprender idiomas com a intenção de melhorar o currículo e se recolocar no mercado. “No primeiro semestre, a busca por cursos de inglês cresceu 15%, enquanto as aulas de expansão subiram 8%”, diz o executivo.

Ter uma boa visão sobre as possibilidades para o seu negócio é importante, mas ser otimista e perseverante também ajuda muito quem deseja superar um momento desfavorável, afirma Nascimento. “Para sair da crise, o empresário deve se empenhar e se doar cada vez mais para sua empresa. Além disso, é importante que ele faça algo diferente do que era feito quando entrou na fase ruim. Ou seja, inovar.”

“Maior crise é a de falta de confiança”

Ousadia também foi o combustível por trás da criação da rede de franquia de aluguéis de máquinas Casa do Construtor. Fundadores e proprietários da empresa, Expedito Arena e Altino Cristofoletti Junior tiveram a coragem de iniciar um negócio até então inédito no Brasil no ano de 1993, época em que a economia local estava em um período tão difícil quanto os tempos atuais, e com o agravante de uma hiperinflação.

“Nascemos num momento difícil para o Brasil, e a crise força a sair de uma zona de conforto que, em outra situação, você jamais abandonaria. E isso é muito bom. Para não desanimar, você tem que ser a pessoa que mais confia no projeto, na ideia. Se não estiver convencido disso, ninguém vai acreditar que sua ideia é boa. Sua empresa já nascerá morta”, fala Arena.

De acordo com o empresário, a Casa do Construtor nasceu inspirada nas dificuldades que enfrentava em seu negócio anterior, uma pequena construtora. “Na época, havia grandes empresas que alugavam equipamentos para grandes construtoras com muita burocracia. Pensávamos em ser diferentes”, diz. “Abrimos o negócio baseados no nosso feeling. Se tivéssemos feito um plano de negócio detalhado, desistiríamos da ideia.”

A empresa começou com uma lojinha em Rio Claro (interior de São Paulo) que era administrada por terceiros sob a supervisão dos fundadores. Com o sucesso do empreendimento, Arena e Cristofoletti fizeram planos de abrir novas unidades em municípios vizinhos, mas a falta de capital os impedia de comprar mais equipamentos para fazer a locação. A solução encontrada foi adotar o sistema de franchising para melhorar as compras e o posicionamento no mercado com o apoio de parceiros.

Após anos de preparação e estudos, eles inauguraram a segunda Casa do Construtor, em 1997, na cidade de Araras, como uma loja própria, mas funcionando no sistema de franquia. “Um ano depois, abrimos nossa terceira unidade em Limeira e a nossa primeira franquia em Americana. Buscávamos crescer nas cidades próximas, o que foi um grande acerto no início da nossa trajetória”, explica Arena.

A ideia deu tão certo que a empresa, hoje proprietária de 222 lojas em todas as regiões do País, já ganhou vários prêmios de franchising. Foi eleita a melhor franquia do Brasil pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios em 2010 e, dois anos depois, pela ABF. Sob o ponto de vista econômico, também se tornou um case de sucesso. “Nos últimos anos, crescemos no mínimo 14 vezes o PIB”, comemora Arena. E segue em alta neste ano, apesar da crise: cálculos internos apontam expansão de 8,9% em toda a rede (2% com a mesma base de lojas), índice que está na contramão do mercado de locação em geral, que caiu em torno de 30% a 40%.

Apesar dos bons números, a Casa do Construtor está, sim, sendo afetada pelo mau momento da economia nacional. De acordo com Arena, o aumento do faturamento é mais tímido do que o de anos anteriores, assim como a inauguração de novas unidades. Apesar disso, as fachadas e os ambientes internos das lojas estão sendo revitalizados, ao mesmo tempo em que os funcionários e franqueados passam por um novo treinamento e investimentos em marketing são realizados. Nada de ficar parado!

“É hora de rever processos, cortar gastos, analisar os custos e buscar surpreender o mercado. Mas a maior das crises é a de falta de confiança. Muitas empresas têm projetos que poderiam produzir oportunidades, mas não o colocam em prática por desconfiança”, diz o executivo. “Estamos atentos, focados nos clientes e analisando constantemente nossos pontos fracos e fortes, oportunidades e ameaças. Vamos capacitar franqueados, colaboradores das lojas e da franqueadora, pois um bom time faz a diferença.”

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