Sob chuva e trovoadas

No meio da tempestade que tomou conta do cenário econômico do País, o pacote de concessões anunciado pelo governo pode ser um sinal de calmaria? O que os empresários da construção civil devem esperar pela frente? Com mais ou menos otimismo, alguns especialistas revelam seus prognósticos para curto e longo prazo

 

A nuvem negra estava rondando há algum tempo, aproximou-se lentamente e, no momento em que menos se esperava, quando as previsões apontavam um longo período ensolarado, ela se estabeleceu sem dar muitos sinais de que irá desvanecer-se tão cedo. Ainda assim, será que ventos de mudança – ansiosamente aguardados – podem começar a soprar? Há quem aposte que sim e outros, ressabiados, acreditam que o mau tempo deve persistir. De qualquer forma, há um consenso: não é hora de deixar o guarda-chuva em casa.

“Já estamos, desde o início do ano, em recessão. Vale ressaltar que a economia brasileira em 2014 não cresceu quando comparada com 2013. A projeção para 2015 é de encolhimento, com taxa de desemprego subindo e, o pior, inflação de custos acelerada”, avalia Felipe Leroy, professor de economia do Ibmec/MG. “É contraintuitivo a priori uma economia que não cresce, mas apresenta uma expectativa de inflação para o ano de 2015 duas vezes acima do centro da meta, que é de 4,5% ao ano. Nesse caso, a inflação é puxada pelo lado do custo.”

Leroy acredita que, neste momento, é necessário ajustar para crescer. Mesmo assim, crê em uma reversão no quadro já a partir do ano que vem. “O governo está implementando um forte ajuste fiscal, necessário haja vista o seu elevado nível de endividamento. Associado à política fiscal contracionista, a monetária segue na mesma direção. Minha expectativa é a de que, a partir do primeiro semestre de 2016, a economia volte a crescer.”

No início de junho, o governo federal anunciou um pacote de novas concessões com investimentos de R$ 198,4 bilhões para modernizar aeroportos, rodovias, ferrovias e portos. Eles fazem parte da nova etapa do Plano de Investimento em Logística (PIL), que prevê uma parcela de R$ 69,2 bilhões para o período de 2015 a 2018 e, a partir de 2019, mais R$ 129,2 bilhões. Desse montante, R$ 66,1 bilhões deverão compor as concessões para as rodovias, para as quais já estão previstos cinco leilões referentes a projetos iniciados no ano passado, no valor de R$ 19,6 bilhões. Entre as obras, estão previstas duplicações de pistas, faixas adicionais e sinalização.

Considerada estratégica pelo governo para a retomada do crescimento, a expansão ferroviária também terá uma nova rodada de concessões – somando R$ 86,4 bilhões para cinco empreendimentos, incluindo o trecho brasileiro da Ferrovia Bioceânica, que vai até o Peru e receberá cerca de R$ 40 bilhões em investimentos. Já o setor portuário, importante para impulsionar as exportações, deverá contar com R$ 37,4 bilhões. Para a modernização aeroportuária, as concessões totalizam R$ 8,5 bilhões e incluem obras em Porto Alegre, Salvador, Florianópolis, Fortaleza e em outros sete aeroportos regionais. Os novos leilões estão programados para o primeiro trimestre de 2016.

O professor Leroy, entretanto, se mantém cético em relação a esses números. “Acho pouco provável de ser implementado diante da forte restrição orçamentária”, opina. Para ele, a construção civil e, consequentemente, o setor de locação de equipamentos foram fortemente afetados, uma vez que o governo “desancorou o setor”. “Na minha concepção, o crescimento anterior foi artificialmente inflado pela política creditícia e de subsídios. O momento atual é de restrição orçamentária do governo, que não consegue manter a política fiscal expansionista”, expõe.

No curto prazo, Leroy avalia que os empresários do ramo de locação de equipamentos e de construção civil devam considerar o pior cenário possível para sua tomada de decisões, e isso envolve: desemprego elevado, altas taxas de inflação e uma política econômica (monetária e fiscal) contracionista. Para o longo prazo, ele pondera que seja preciso ajustar principalmente a estrutura de custos, “além de realizar adaptações no sentido de aumentar a competitividade dos produtos ofertados no mercado”. “Prezo sempre por uma política conservadora diante de um período de elevada volatilidade. Como há uma elevada incerteza com relação ao futuro diante da instabilidade política e econômica, é melhor traçar planos conservadores”, fala.

Copo meio cheio

Alguns especialistas veem com bons olhos a segunda etapa do PIL. Um deles é Reginaldo Gonçalves, coordenador de ciências contábeis da Faculdade Santa Marcelina (FASM). Para ele, as regras de concessão e os modelos financeiros estão mais realistas, e isso poderá atrair mais investidores do que em 2012. Em sua opinião, os investidores esperam um choque de confiança do governo. “Na análise de viabilização econômica, as empresas só se interessam por opções com melhor taxa de retorno”, aponta.

Gonçalves acredita que a busca por recursos privados pode aquecer o mercado, mas é preciso redobrar a atenção sobre a transparência das operações, uma vez que, em alguns casos, o governo participará dos negócios como investidor ou como financiador, com taxas de juros mais atraentes. “Muitas companhias que poderiam participar dos projetos estão envolvidas na Operação Lava Jato. Isso é um risco na busca por investidores tanto no mercado interno quanto externo”, observa.

Apresentado na M&T Expo 2015, um estudo feito pela Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema) indicou que, no segmento de equipamentos para o setor da construção, o volume de vendas nos primeiros cinco meses de 2015 foi 44,3% inferior ao resultado do mesmo período do ano passado. A sondagem ouviu 32 empresas, sendo 27 construtoras e sete locadoras.

O lado bom de todo esse cenário um tanto cinzento é que os empresários tendem a ser menos pessimistas do que o cenário real, segundo constatou Brian Nicholson, consultor e coordenador da pesquisa. “Isso é importante, pois, se a pessoa não for otimista, é melhor mudar de barco”, diz. E o quadro revelado pela sondagem é impactante: para 94% dos entrevistados, os resultados de 2015 serão piores ou muito piores na comparação com 2014. Entre os dados negativos apontados, como atraso nas obras e falta de crédito, um dos destaques ficou com o desemprego: 79% das empresas demitiram neste ano por conta da queda nas vendas.

Para os dirigentes da Sobratema, a recuperação do setor pode ser impulsionada pelas concessões anunciadas no PIL. Mario Humberto Marques, vice-presidente da entidade, considera que não faltarão oportunidades com base nos investimentos previstos para portos, aeroportos, rodovias, hidrovias, ferrovias, água, energia elétrica e mineração. No entanto, lembra a existência de importantes entraves como a queda do PIB, a alta da inflação e, principalmente, a falta de confiança, motivada pela ausência de transparência das concessões anunciadas em 2012.

Vender lenço

Quem também reforça a tese de que é preciso ver as oportunidades no meio da crise é Isaac Martins, consultor da Training People, mestre em comunicação organizacional pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor. “Hoje vivemos uma época turbulenta comparada a uma chuva bem forte, quase um temporal, porém empresas sólidas vão sobreviver”, analisa, definindo-se como “um otimista”. “Apesar desse cenário desfavorável, não acredito que estamos em uma recessão, pelo menos por enquanto. O empreendedor possui dois caminhos: chorar ou vender lenço. Acredito que a segunda opção seja a mais adequada.”

Martins acredita que as “turbulências” ainda devam perdurar por uns 12 meses e que isso trará grandes dificuldades para algumas companhias, principalmente para as que não se prepararam para isso, fato que considera um erro de estratégia. “O foco agora deve estar em fazer de tudo para manter o mesmo faturamento do ano anterior”, recomenda.

Especialmente para o atual momento delicado, Martins propõe algumas ações imediatas:

1. Reveja os processos internos – Avalie a estrutura da empresa, elimine desperdícios, melhore a comunicação interna e faça a empresa ser mais rápida nas decisões.

2. Invista em novos canais – Há empresas que adotam novas tecnologias. Martins conta que uma loja de material de construção conseguiu aumentar as vendas utilizando televendas e o aplicativo WhatsApp.

3. Renove a equipe – Infelizmente, a cada ano alguns colaboradores ficam caros e desatualizados. Em momentos como esse, o gestor deverá tomar uma decisão: investir em qualificação ou realizar trocas.

4. Estabeleça metas para corte de custos – Que tal fornecer um prêmio para os departamentos que mais economizaram no mês? Segundo Martins, essa pode ser uma ótima saída.

5. Invista em treinamento – Treinar a equipe é um sinal claro de que a empresa está desejosa de melhorar.

O consultor chama a atenção para outros fatores – entre eles, o principal é o relacionamento com os clientes. “Lembre-se de que vendas é relacionamento. Portanto, aumente o número de visitas, vá a campo, busque novos clientes e esteja junto aos vendedores. Segundo, explore novos mercados. Um empreendedor é aquele que observa o cenário atual e enxerga as oportunidades, não os problemas”, frisa. “Em resumo, não veja o que está acontecendo como um problema, mas sim uma adversidade que o gestor deve enfrentar com otimismo e motivação. Se sua equipe sentir que você está desanimado, o efeito será devastador.”

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