Carga pesada

O transporte de equipamentos de terraplenagem até o local da obra deve seguir normas e observar as regras principalmente quanto à amarração. Qualquer acidente no percurso pode trazer sérias consequências

 

Estudiosos de probabilidades e prevenção de acidentes costumam repetir a máxima de que quanto maior a complexidade do sistema, mais elementos interagem entre si e as chances de acidente tornam-se maiores. No transporte de equipamentos de terraplenagem, muitas variáveis podem estar envolvidas e, portanto, todo cuidado é pouco. Na opinião de José Antônio Spinassé, diretor da Luna Transportes, os profissionais hoje estão mais bem informados. “Mas é sempre bom lembrar que os valores dos equipamentos são muito altos para se arriscar com um transporte barato. Por isso, a escolha deve seguir critérios de segurança e qualidade”, orienta.

Spinassé explica que, primeiramente, devem ser obtidas licenças de Autorização Especiais de Transportes (AET), exigidas quando as dimensões do conjunto transportador ultrapassarem 18,60 metros de comprimento; 4,40 metros de altura e 2,60 metros de largura, vazio ou carregado. “Elas existem nas esferas municipal, estadual e federal, e também há uma licença para peso bruto total (PBT) acima de 45 toneladas”, relaciona.

O diretor da Luna alerta também para o fato de que não existe licença para transportar duas máquinas pesadas em uma única viagem. “Além do peso de balança por eixo, não se pode nunca ultrapassar o peso técnico do eixo. No caso de acidente, se o seguro pegar um erro de excesso de peso técnico, não pagará o sinistro” explica.

O Departamento de Estradas de Rodagem (DER) de São Paulo, em sua AET, considera que, para toda carga que ultrapassar 45 toneladas, deve ser recolhida a tarifa de peso (TAP). “Ela é calculada por cada tonelada que ultrapassa esse valor e pelo número de praça de pedágios”, descreve Spinassé. “Para isso, a empresa deve mandar a nota ou ficha técnica que comprove o peso do equipamento. Por exemplo: ‘tara do conjunto transportador com 23 toneladas e equipamento com 32 toneladas, totalizando 55 toneladas’.” Nesse caso, o cálculo será para as 10 toneladas que ultrapassam o limite de 45 toneladas. “Essa legislação é válida para o transportador de cargas indivisíveis”, ressalta.

No caso da contratação de uma empresa transportadora, ela terá de oferecer seguro de risco de acidente e de roubo de carga para o traslado. “Isso vale do embarque ao desembarque. Caso o equipamento já conte com seguro, fica facultativo ao tomador exigir ou não o de roubo.” A sinalização da carreta também é obrigatória e apresenta formato e dimensões definidas pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). “E quando a largura ultrapassar 3,20 metros, é obrigatório o acompanhamento de escolta credenciada”, acrescenta.

Para Spinassé, consultar especialistas do ramo com experiência comprovada e procurar manuais de distribuição de cargas e amarrações são as melhores formas de realizar esse transporte adequadamente. Além disso, os motoristas do setor, pela nova legislação, deverão passar por um curso de 50 horas sobre carga indivisível, cuja certificação deverá constar em suas carteiras nacionais de habilitação (CNHs).

Nova legislação

O conhecimento de normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) envolvidas na inspeção de materiais voltados para movimentação, amarração e elevação de cargas e a atenção aos prazos estipulados pelas normas reguladoras (NRs) e normas técnicas (NBRs) devem andar paralelamente com a realização de inspeções periódicas nos materiais. Afinal de contas, os profissionais que atuam na área respondem legalmente por quaisquer acidentes e não podem alegar desconhecimento dessas regulamentações.

Atuando como consultora de projetos de movimentação para clientes como Gerdau, Caterpillar, Metso e Tecsis, entre outras, a Rigging Brasil relaciona algumas das principais NRs e NBRs sobre a inspeção desses materiais. São elas: NR 11 (inspeção permanente de cabos de aço, cintas, correntes, roldanas e ganchos e substituição das partes defeituosas) e NR 12 (inspeção e manutenção preventiva e corretiva de máquinas e equipamentos, conforme determinação da fabricante e normas técnicas oficiais).

Também há normas técnicas específicas para a inspeção de materiais utilizados na amarração, como laços de cabo de aço (NBR 13541/13543), cintas têxteis (NBR 15637), correntes e lingas de corrente (NBR 15516-2). “A obrigatoriedade da amarração e os requisitos mínimos estão previstos nas normas do Contran, porém não se tem uma resolução específica para máquinas e equipamentos. A amarração de carga é um item obrigatório e deve ser realizada em 100% do transporte de cargas indivisíveis”, observa Gustavo Cassiolato, diretor da Rigging Brasil.

O executivo reforça que, até julho de 2015, os condutores devem obrigatoriamente passar por um curso específico para o transporte de cargas indivisíveis. “Nele serão abordados assuntos referentes à prática de amarração de carga”, comenta. “O treinamento é obrigatório e está previsto Resolução 168 do Contran.”

Cassiolato acredita, porém, que a fiscalização é ineficiente principalmente devido à falta de conhecimento específico sobre amarração de carga por parte dos agentes rodoviários. “E como não temos resoluções específicas para o transporte de equipamentos, eles podem apenas orientar em caso de insegurança na operação, exigindo que o transportador refaça a amarração até verificar que não ofereça risco no transporte”, explica.

De acordo com o diretor da Rigging, a multa só pode ser gerada nos casos em que a carga cair no leito da via, conforme artigo 231, incisos I e II do Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503/97). “Mas, a partir de julho de 2015, os agentes poderão multar os condutores de veículos desse tipo de carga que não tiverem realizado o treinamento obrigatório.”

Cassiolato observa que as empresas só dão valor a esse tipo de serviço quando vivenciam algum acidente. “Poucas estão preocupadas em proceder de forma adequada, realizando projetos de amarração de carga com estudos corretos, transportando os equipamentos em carrocerias apropriadas, promovendo treinamentos específicos aos caminhoneiros com orientações específicas, entre outras medidas”, lamenta.

O que deve ser feito

Fernando Fuertes, engenheiro especialista em elevação e amarração de cargas , concorda com Cassiolato e ressalta que não há espaço para o amadorismo e para o improviso nessa área, pois altíssimos valores de força entram em ação durante as frenagens, curvas e acelerações e todos os equipamentos usados para a amarração devem estar em perfeito estado. “Infelizmente ainda presenciamos muitos acidentes envolvendo o transporte de máquinas empregadas na terraplenagem. São equipamentos de grandes dimensões, muito pesados e que se deslocam na plataforma de transporte como se fossem uma folha de papel”, aponta.

Com experiência de 15 anos na área e cursos de especialização realizados no Brasil e no exterior, Fuertes é responsável pela empresa de consultoria e treinamento Amarração Serviços e Consultoria Técnica. Ele ensina que, para uma correta amarração da carga, é necessário dimensionar e calcular as forças máximas que atuarão no sistema durante o transporte. “Uma vez feito isso, o usuário deverá definir os equipamentos de contenção normatizados a serem utilizados – e nunca misturá-los”, enfatiza. Entre as opções estão cintas têxteis com catraca tensionadora e ganchos com trava de segurança nas extremidades; correntes com catraca tensionadora, encurtadores e ganchos com travas nas extremidades; cabos de aço com dispositivos tensionadores (esticadores, guinchos de alavanca); e ganchos com trava de segurança nas extremidades. Todos estes equipamentos deverão ser conectados nos pontos de amarração na carga e no veículo de transporte, sendo que tais pontos também deverão ter a resistência necessária calculada.

Fuertes explica que a amarração da carga ao veículo de transporte sempre deverá ser calculada, dimensionada e especificada de acordo com a norma vigente, e ainda muito desconhecida, da ABNT: a NBR 15883-1. Já o emprego e a especificação dos equipamentos de amarração deverão estar em conformidade com a norma ABNT NBR 15883-2 (amarração com cintas têxteis). “Como referência estrangeira para o uso de cabos de aço e correntes, sugerimos as normas europeias EN 12195-3 (amarração com correntes grau 8) e a EN 12195-4 (amarração com cabos de aço) enquanto não temos as normas da ABNT para esses itens”, orienta.

Na ausência desses e de outros itens obrigatórios, o transportador pode infringir o artigo 230 e algum de seus incisos. Como, por exemplo, o inciso IX – CTB (conduzir o veículo com equipamento obrigatório ineficiente/inoperante).

Na opinião do especialista, a preocupação e a busca por informações e pela elaboração de manuais têm crescido. “Seja por meta interna de redução de avarias e acidentes, seja pela recomendação e persistência das companhias seguradoras”, observa. “A solução é a busca contínua pela especialização, pela capacitação técnica e pela criação de procedimentos operacionais, além da atualização e do treinamento dos envolvidos no transporte desse tipo de carga.”

 

Veja+

Entre as fornecedoras de equipamentos para as obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a BMC-Hyundai encarou uma série de desafios para percorrer os mais de 3 mil quilômetros que separam Itatiaia (RJ) e Belém (PA). Leia os detalhes dessa operação logística no site da Apelmat.

Confira também um exemplo de amarração ineficaz de escavadeira e outro de procedimento mais adequado.

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