É preciso pensar positivo

Apesar dos números negativos deste ano e das perspectivas econômicas pouco favoráveis para o Brasil, o setor de construção civil espera por bons resultados em 2015

Por Denise Marson

 

Otimista por definição e com inúmeras oportunidades no horizonte, porém enfrentando desafios além do desejável. Esse é o retrato do segmento da construção civil no País. Contrariando todas as expectativas, elevadas principalmente em razão da realização da Copa do Mundo, o setor teve um resultado muito aquém do esperado em 2014. Segundo a Tendências Consultoria, o desempenho, quando medido pela produção física de materiais de construção (ICC-IBGE), deve cair 4,7% neste ano comparativamente a 2013. E o PIB setorial tem tudo para atingir um índice muito fraco.

“A questão da enorme incerteza eleitoral, associada às paradas na produção e no comércio por conta do Campeonato Mundial de Futebol, se refletiu na queda da confiança dos agentes econômicos e foi determinante para este cenário”, opina Amaryllis Romano, analista setorial e de inteligência do mercado da entidade. Na opinião dela, a reeleição da presidente Dilma Rousseff pode trazer novas perspectivas para a construção civil, mas futuros bons resultados dependem muito mais da adoção de um plano estratégico de crescimento econômico para o País do que do simples início de um novo governo.

De acordo com a analista, o segmento tem potencial para caminhar positivamente no longo prazo, uma vez que representa o motor do crescimento nacional. Como principais “combustíveis” figuram tanto o elevado déficit de infraestrutura quanto o de moradias. “No curto e médio prazo, o desempenho ainda vai depender da efetiva restauração da confiança dos agentes na condução da política econômica”, reflete Amaryllis. “Nosso prognóstico para a economia como um todo não é muito alvissareiro, mas a construção, mesmo em um mundo ruim, ainda pode ser um destaque positivo.”

Moradias em falta

Considerados setores com demandas reprimidas, moradia, indústria e infraestrutura são responsáveis por grandes expectativas do segmento em termos de novas obras. Mas a área mais mencionada pelos especialistas é a habitacional. Amaryllis cita dados levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que dão conta de uma carência de 5,2 milhões de domicílios no Brasil em 2012, índice um pouco melhor do que os 5,59 milhões estimados no ano de 2007.

Para se ter uma ideia do tamanho da necessidade, um estudo feito pela FGV Projetos, em outubro deste ano, revelou que, em 2013, havia 68,4 milhões de famílias no País, 3,7% a mais do que em 2012. Até 2024, estima-se que o Brasil terá 16,8 milhões de novas famílias, sendo 10 milhões com renda familiar entre um e três salários mínimos.

“Com um déficit estimado para 2014 de cerca de 5 milhões de domicílios, o País terá o desafio de proporcionar habitações adequadas para mais de 20 milhões de famílias até 2024. Se o programa habitacional atender pelo menos 51% dessas famílias, isso representará a necessidade de construção de 11,2 milhões de habitações sociais, ou 1,1 milhão por ano”, aponta a análise.

Em termos financeiros, o estudo indica que o País precisará de investimentos de R$ 760,6 bilhões para a construção de habitações de interesse social. Esse montante considera R$ 68.134,62 como o valor médio das habitações e, com isso, projeta que esse total será distribuído em R$ 76,06 bilhões ao ano pelos próximos dez anos.

Ao menos parte desse déficit tende a ser resolvido com o “Minha Casa Minha Vida”. O estudo da FGV Projetos corroborou a importância desse programa como política permanente de habitação. Segundo o estudo, na primeira fase foram alocados R$ 34 bilhões, sendo R$ 16 bilhões em subsídios. Para a etapa 2, foram anunciados recursos de R$ 125,7 bilhões, sendo R$ 72,6 bilhões em subsídios e R$ 53,1 bilhões em financiamento. Em setembro deste ano, o governo brasileiro ampliou a meta do programa em mais 350 mil, atingindo um total de 2,75 milhões de unidades.

Todos esses números promissores, no entanto, não serão suficientes caso questões importantes no âmbito governamental não sejam resolvidas. Para a analista da Tendências Consultoria, o Brasil precisa destravar a agenda de concessões e parcerias público-privadas (ou seja, privatizações) para dar andamento a muito do que precisa ser feito em termos de infraestrutura. “E estabilidade econômica também é fundamental para um cenário de perspectivas favoráveis ao setor”, completa.

Entraves

Especificamente para as empresas que fazem locação de equipamentos pesados para construção, o vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema), Eurimilson Daniel, acredita que diminuir o tempo ocioso e ocupar a frota disponível no parque é a prioridade para o futuro próximo. “Falar que os locadores vão investir mais, crescer e aumentar o parque que já têm é outra coisa. Se reduzirmos a ociosidade, já deveremos caminhar com aspecto positivo”, avalia.

Daniel, que também é diretor da Escad, diz que a venda de máquinas e equipamentos caiu em 2014 e tem viés de queda para o próximo ano. A maior parte do investimento em obras, importantíssimo para o setor de locação, ainda não se concretizou, pois depende de alinhamento político. “Dos R$ 1,7 trilhão de investimento, R$ 600 bilhões já foram aplicados. Outra parte, cerca de R$ 500 bilhões, ainda está acontecendo, e outros R$ 600 bilhões ainda não saíram do papel”, resume.

Para o empresário, esses aportes certamente trarão demanda para o setor de locação, mas também dependem da expectativa de crescimento do PIB. “O investimento em infraestrutura está abaixo do que o País precisa. Em 2010 e 2011, os locadores acreditavam em crescimento sustentável e compraram muitas máquinas. Agora, estão com oferta maior que a demanda”, explica. Muitos dos equipamentos disponíveis hoje para locação foram adquiridos em 2010 e devem terminar de ser pagos após cinco anos. Por isso, o ano que vem poderá ser o momento de “renovação, inovação e alinhamento”. “Dependendo do nicho em que atuam, as empresas poderão pegar novo crédito para renovar o maquinário”, pondera.

Daniel faz uma ressalva: há empresas que ainda não conseguiram pagar suas máquinas e podem estar renegociando suas dívidas. Nesses casos, a regularização dessa situação é prioridade. “Em momento de crise, temos de manter os pontos vitais. Pagar empregados, água, luz, telefone. Quando é possível sair da pressão racional da manutenção do negócio, começa-se a pensar estrategicamente.”

Na opinião do vice-presidente da Sobratema, outro ponto importante para que as empresas do setor não percam as oportunidades que possam surgir em 2015 é definir uma área específica para atuar. “É preciso decidir qual é a sua especialidade: fundação de prédio, indústria, limpeza de rio, periferia, grandes projetos, infraestrutura… Cada um tem de fazer a sua lição de casa. Não adianta entrar em um setor em que não se tem competitividade. Não é aquilo que você quer, é o que você pode”, recomenda.

E a mão de obra? E a carga tributária?

Levando-se em conta o esfriamento que o setor de construção civil está vivenciando, problemas como a falta de mão de obra – recorrente em outros períodos da economia – atingem as empresas de maneira mais pontual. Essa é avaliação de Flávio Maranhão, mestre e doutor em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Apesar disso, ainda existe uma grande carência em relação aos empregos de média liderança: mestres e encarregados. “Essas duas classes de profissionais demandam muito tempo em canteiro de obras, e as novas gerações não têm se mostrado dispostas a esperar”, analisa.

Em relação aos engenheiros, Maranhão acredita que há um problema com a qualidade da formação. “Nossos cursos de pós-graduação stricto sensu estão esvaziados e os de lato sensu não têm dado os resultados esperados”, avalia. Em sua opinião, durante a graduação e os primeiros anos de carreira, os estudantes e recém-formados anseiam por crescimento rápido e, com isso, não geram resultados efetivos para as empresas.

Ele também menciona dificuldades quanto à questão trabalhista nesse setor. Há uma grande dúvida no que se refere à terceirização das atividades produtivas. “Alguns fiscais têm questionado a estratégia dos general contractors (empreiteiros) e a legalidade de terceirização de atividades-fim. Isso faz com que o contingenciamento seja maior por parte das construtoras para evitar sustos futuros”, comenta.

Além das questões trabalhistas, as empresas do setor arcam com uma carga tributária bastante alta. Esse é outro dos problemas importantes com os quais o segmento de construção civil tem de lidar. “O custo de nossas principais matérias-primas (cimento e aço) continua acima da média do resto do mundo, apesar de nossas empresas serem players globais. E, com isso, todo o setor acaba sendo impactado”, explica Maranhão.

Na opinião do especialista, o trabalho da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) para a redução de alguns tributos foi positivo. Entretanto, o levantamento mais recente feito pela entidade, divulgado em novembro, projetava apenas regularidade nas vendas após dois meses de retomada de desempenho.

Considerando o ano de 2014, o desempenho da indústria não foi bom. No acumulado de janeiro a setembro, houve redução de 6,5%. E, nos últimos 12 meses, retração de 4,9%.

Na opinião de Walter Cover, presidente da Abramat, “o mercado foi duramente afetado pelo pessimismo em relação à economia, reforçado pela perda de dias úteis em função da Copa e de feriados, bem como pelo aumento nas importações”. Diante desse quadro, a previsão para o fechamento do ano de 2014 foi revisada e aponta para uma redução de 4,0% em relação a 2013.

Mas nem tudo é tristeza: o consumo de cimento, principal termômetro do setor de material de construção, continua a mostrar crescimento. “Hoje, o consumo per capita brasileiro já é destaque. Ao longo dos últimos anos, houve um grande crescimento desse indicador. Entre 1980 e 2002, o índice cresceu 35% e, a partir de então, mais de 100%”, afirma Maranhão.

Segundo ele, apesar de todos os desafios, há que ser otimista por natureza. “É preciso ser confiante, pois há uma necessidade de grandes investimentos. Se os empresários, que muitas vezes têm fluxo de caixa negativo por grandes períodos, não acreditarem no futuro, teremos uma estagnação. Por conta disso, acredito que temos sempre boas expectativas.”

 

Sustentabilidade é a tônica

Em relação aos materiais utilizados pelas empresas, a sustentabilidade tem ganhado destaque na construção civil, principalmente em decorrência da crise hídrica que vem afetando São Paulo e outros Estados.

Segundo Flávio Maranhão, mestre e doutor em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), companhias de ponta já começam a investir em iniciativas importantes para racionalizar o consumo de água em seus canteiros de obra. “Nosso setor sempre gera importantes resultados quando é provocado. Entre as ações utilizadas, há o uso de água cinza, o reúso de água de lavagem de caminhões-betoneiras e os circuitos fechados em oficinas”, relaciona.

“Um bom exemplo foi dado pela Camargo Correa com o lançamento audacioso do programa de redução de seu gasto hídrico. Já o grupo Odebrecht implantou o Projeto Aquapolo, em parceria com a Sabesp – que fornece água de reúso para todo o complexo petroquímico de Mauá –, e uma moderna central de reciclagem de resíduos de construção na cidade de São Paulo”, explica Maranhão.

Mesmo com essas boas práticas, o professor acredita que a agenda de sustentabilidade ainda tem um longo caminho para se tornar prioridade nos canteiros de obra. Em sua opinião, o setor se caracteriza por ter ilhas de excelência nesse tema, mas o nível de disseminação das melhores práticas é baixo.

Quem presta serviços no ramo da construção civil, como é o caso dos locadores de equipamentos pesados, e quer melhorar seus indicadores também deve estar envolvido com o aprimoramento dos processos como um todo. “Precisamos de empresas que sejam parceiras das construtoras, e não simples fornecedoras de equipamentos”, diz. Maranhão cita como exemplo o aprimoramento da mistura de concreto, fazendo com que a dispersão do cimento ocorra de maneira adequada e, consequentemente, o consumo se torne mais racional.

“É necessário que os fabricantes realizem pesquisas nessa linha em conjunto com centros de pesquisa e universidades para que consigam se diferenciar no mercado e oferecer ganhos efetivos aos seus clientes”, acrescenta.

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