Ano novo, velhos desafios

A busca por novos horizontes e a implantação de soluções criativas abrem um leque de oportunidades para as empresas do setor

Leilões de rodovias, de aeroportos e do campo de Libra, investimentos para a melhoria da mobilidade urbana e para construção, reforma e modernização das arenas que sediarão os jogos da Copa do Mundo. Ao olhar pelo retrovisor, o ano de 2013 parece ter registrado muitas iniciativas positivas.

A atenção especial por parte dos governos federal, estaduais e municipais na área de infraestrutura tem um objetivo: reduzir os gargalos existentes nos modais de transporte e logística e nos setores de saneamento básico, energia e habitação.

Entretanto, para Marcus Welbi, presidente da Apelmat – Associação Paulista dos Empreiteiros e Locadores de Máquinas de Terraplenagem e Ar Comprimido –, o balanço do ano que passou não foi negativo nem tão positivo. “Viemos de uma fase conturbada. O ano de 2008 explodiu em obras e as empresas investiram pesado. Porém, de 2009 pra cá, vimos um declínio e os investimentos cessaram”, explica. “Em relação às obras públicas, pouco saiu do papel até o final de 2013. Ainda há muita coisa para ser concretizada.”

De fato, se considerarmos o setor público, até 2018 teremos 8.300 obras em andamento, em projeto ou intenção em oito setores da economia (óleo e gás, transporte, energia, saneamento, indústria, infraestrutura de habitação, infraestrutura esportiva e outros). O dado é da pesquisa Principais Investimentos em Infraestrutura no Brasil até 2018, encomendada pela Sobratema – Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração –, que também aponta aportes financeiros da ordem de R$ 1,19 trilhão para o período.

“Os investimentos em obras de infraestrutura impactam diretamente os setores relacionados, como construção civil e a indústria de insumos, além de gerar empregos”, lembra Claudia Oshiro, economista especialista em construção civil da Tendências Consultoria Integrada. “É esperado um volume grande de investimentos do segmento privado com as concessões de rodovias e aeroportos que já ocorreram no ano passado e com os programas de ferrovias e portos que estão programados.”

De acordo com a pesquisa, o segmento da economia que responde pela maior fatia do investimento de R$ 1,19 trilhão é o de transportes. Estão estimados R$ 369,6 bilhões para o período, o que corresponde a 30,94% do total previsto. O trem de alta velocidade (TAV) ainda é a obra de maior visibilidade e valor, da ordem de R$ 34,6 bilhões. Os modais que concentram os maiores montantes são as ferrovias, com 34,5%; os portos e hidrovias, com 25,3%; e as rodovias, com 14,3%.

Com números próximos aos do transporte está o setor de óleo e gás, com aportes financeiros estimados em R$ 346,6 bilhões, o que representa 29,02% do total. O novo Plano de Negócios da Petrobras (PNG 2013-2017) definiu 947 projetos, com previsão de investimentos totais de US$ 236,7 bilhões. Em exploração e produção, que representam 62,3% do montante geral, os valores mais expressivos estão no desenvolvimento da produção ligada principalmente às reservas descobertas nas áreas do pré-sal.

Já a infraestrutura esportiva, incluindo as arenas, estádios e instalações para a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos de 2016, terão investimentos totais de R$ 5,4 bilhões.

“Além disso, há um volume de recursos vultosos na construção de hidrelétricas no Norte do País – Jirau, Belo Monte e Santo Antônio”, acrescenta Claudia.

Desafios

A criação de um ambiente propício, com boa regulação, estabilidade econômica e regras transparentes, ainda é o principal desafio para atrair e concretizar investimentos no Brasil.

A burocracia, ou seja, a lentidão nas liberações dos projetos e das licenças ambientais, a falta ou a falha na definição de alguns processos importantes para a obra de infraestrutura e algumas falhas nos modelos de licitação/contratação entram na lista de velhos e conhecidos entraves. “No caso da Copa do Mundo, há ainda o desafio de entregar a tempo a infraestrutura de acesso aos estádios, que permitirá uma maior agilidade na mobilidade do público e de jornalistas até o local da realização dos jogos, e a conclusão de algumas arenas que deveriam ter sido entregues até dezembro de 2013, mas estão em fase de finalização”, acrescenta Afonso Mamede, presidente da Sobratema.

Além de intensificar ações que possibilitam maior agilidade para o início e o término de obras, é necessário aumentar os aportes financeiros na área de infraestrutura em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). “O percentual de investimento dos principais setores que compõem a infraestrutura – energia, saneamento e transportes – em relação ao PIB apresenta uma variação pequena desde 2008. A estimativa é que, em 2013, esse índice tenha chegado a 1,97%, considerando a soma dos três segmentos. Em 2007, esse percentual era de 1,34%. Países como a China, por exemplo, apresentam investimentos superiores a 13%”, enfatiza Mamede.

Para o deputado estadual Orlando Morando, do PSDB-SP, a viabilização de capital suficiente para que as obras sejam tocadas foi um grande desafio superado. Hoje as questões ambientais têm exigido mais paciência das empresas. “Ainda assim, o governo de São Paulo tem dado velocidade para o processo de licenciamento”, diz.

Novos horizontes

Segundo Morando, os associados da Apelmat vão se surpreender. “Tivemos anos de preparação, mas estamos em ano de execução”, afirma. “Não tiro a razão deles em relação ao passado; afinal, existem os processos que envolvem a busca de aporte financeiro e licença ambiental, por exemplo. Mas, por conhecer as obras e suas demandas, sou otimista para este ano.”

Welbi é cauteloso. “Precisamos deixar de lado um pouco a expectativa de que novas oportunidades se abram por conta de PAC, pré-sal etc., arregaçar as mangas e partir para a ação”, diz.

Muitos associados estão com os olhos – e os negócios – voltados para as obras que são realizadas em diferentes regiões do País. “O mercado está parado em São Paulo, mas no Brasil não. Tem gente trabalhando em todos os Estados. Temos que ir aonde tem obra”, comenta o presidente da Apelmat.

A busca por novos horizontes não só leva empresas a atuar em outras localidades, como fomenta a criatividade. Por exemplo, empresas especializadas na locação de minipás carregadeiras têm dificuldades em sair do Estado. A solução foi adaptar máquinas para outras versões de trabalho. “Quem loca retroescavadeiras também buscou alternativas. Em vez de trabalhar com terra, adaptaram o martelo hidráulico e atuam em demolição. Outro associado, que faz locação de minicarregadeiras, colocou um garfo na máquina e usa o equipamento para carregar paletes em um shopping. Há diversos nichos de atuação que abrem um leque de oportunidades para não deixar ninguém parado”, finaliza Welbi.

Pelo retrovisor

O ano de 2013 foi marcado pelo início das concessões programadas pelo Programa de Investimento em Logística (PIL). Foram realizados cinco leilões de rodovias e o leilão dos Aeroportos do Galeão e de Confins. “Com isso, parte dos investimentos anunciados para reduzir os gargalos existentes nesses dois segmentos deve começar a ser liberado em breve”, acredita Afonso Mamede, presidente da Sobratema – Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração.

Outros dois pontos importantes foram as encomendas do PAC–Equipamentos e do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que contribuíram para o resultado positivo obtido pelo mercado de linha amarela. De acordo com estudo de mercado feito pela Sobratema, houve um crescimento de 13% na quantidade de equipamentos comercializados, totalizando 33,3 mil unidades vendidas contra mais de 29,4 mil comercializadas em 2012.

Ainda na esfera federal, houve o leilão do campo de Libra, no pré-sal, e o Programa Minha Casa, Minha Vida, que entregou, até o fim do ano passado, 2,4 milhões de habitações. “E existem mais 600 mil em andamento. Em três anos de gestão, foram consumidos R$ 50 bilhões”, aponta Mamede.

No caso dos governos estaduais, ganham destaque os investimentos realizados para a melhoria da mobilidade urbana, como a ampliação das linhas metroferroviárias em São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro, e a implementação dos BRTs e VLTs em várias capitais do País. Além disso, foram feitos aportes financeiros para a duplicação e melhoria em rodovias estaduais, como é o caso da Tamoios, em São Paulo.

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